• Artigos 29.07.2009 37 Comments

    Cinema no horário de almoço, passeio de balão, mesa de pingue-pongue. Para algumas empresas, aliar diversão com a produtividade é essencial para manter a motivação dos funcionários em alta. E a crise econômica internacional não diminuiu os planos das companhias na área de recursos humanos e as que optaram em manter os programas conseguiram sentir menos os efeitos da turbulência mundial.

    Uma pesquisa da Mercer Consultoria com 200 empresas mostra que o custo com benefícios (de plano de saúde a ações de divertimento) subiu de 18% do gasto com a folha de pagamento mensal entre os anos de 2007 e 2008 para 22% de 2008 para 2009, o que aponta um maior investimento nessa área mesmo com a crise. “Essas ações vão além da política de investimentos. São estratégias de negócios”, afirma Alexandre Espinosa, consultor da Mercer.

    Para as empresas, os custos com programas inusitados para motivação não são mais vistos como gasto e, sim, como investimento. E há retorno. “Por meio de pesquisa de clima percebemos que há uma maior satisfação e comprometimento dos funcionários. Isso pode ser relacionado com a melhoria de produção”, explica a consultora de Recursos Humanos do Grupo Soma, Jane Souza.

    César Souza, da Empreenda Consultoria, enxerga, também, uma mudança de tendência. Em vez de promover eventos só com diversão e relaxamento, as organizações incluem conteúdo. “Há uma busca muito clara por programas que dão resultados. Técnicas de relaxamento e divertimento sem conteúdo estão caindo por terra”, acredita.

    A Visa Vale, empresa de emissão e administração de cartões de benefício, tem diversos programas para relaxar e incentivar seus funcionários a trabalharem com mais empenho. As ações vão desde um cinema na hora do almoço a até show de música no próprio escritório. “A pesquisa de clima anual mostrou um crescimento de 50% para 80% de aprovação de 2005 a 2008. Com isso, conseguimos obter um crescimento de 29% ao ano e ainda temos 94% dos nossos clientes satisfeitos. Uma coisa não poderia acontecer sem a outra”, comenta Roberto Pina, diretor financeiro.

    Os programas de motivação serviram para manter os níveis produtivos mesmo em período de crise, pois ajudou a diminuir o clima de tensão no ambiente de trabalho. “Quem manteve os planos para essa área sai na frente no momento que a crise começa a se dissipar, pois não faltou fôlego para o pessoal durante o período mais difícil”, afirma a consultora de carreira, Isabel Macarenco.

    No caso da Avaya, empresa de soluções em telecomunicação, a crise não mexeu com os programas. “Isso manteve a nossa produtividade, mesmo no momento de maior tensão”, diz Tatiana Tafuti, gerente de Recursos Humanos.

    Ter funcionários seguros foi o objetivo da Dedic, empresa da área de telemarketing, ao implantar iniciativas de relaxamento. Além de uma sala de “descompressão” (espaço para relaxar e descansar), a companhia contratou massagistas para “desestressar” os funcionários. Segundo Wagner da Cruz, diretor de Recursos Humanos da empresa, as iniciativas dão resultado. O nível de absenteísmo (faltas) na empresa é de 4%, enquanto a média do mercado varia de 10% a 11%. “Os custos com as faltas caíram cerca de 50%”, afirma Cruz.

    No Santander Real, programas de qualidade de vida já fazem parte da cultura do banco. Entre eles, estão práticas de esportes, ações de solidariedade, de relaxamento e eventos culturais. Para Maria Cristina Carvalho, superintendente de RH do grupo, medir o retorno das ações no faturamento do banco é o principal desafio. “O que sabemos é que uma pessoa de bem com ela mesma, trabalha melhor, vive melhor em casa e atende melhor o cliente”, diz.

    VISA VALE

    SETOR: empresa emissora e administradora de cartões de benefícios
    Nº DE FUNCIONÁRIOS: 208
    AÇÕES PARA MOTIVAÇÃO: cinema no horário de almoço, sorvete nos dias quentes, show de música no espaço reservado para relaxamento dentro do escritório, happy hour e treinamento para corrida
    RESULTADOS: aumento de 50% para 80% de aprovação dos funcionários, crescimento de 29% ao ano de faturamento e satisfação de 94% dos clientes

    AVAYA

    SETOR: empresa de fornecimento de produtos e serviços
    de comunicação corporativa
    Nº DE FUNCIONÁRIOS: 300
    AÇÕES PARA MOTIVAÇÃO: um espaço de 800 m2 para relaxamento dos funcionários, com mesas de pingue-pongue, sinuca, para jogo de cartas, com campeonatos. Como integração anual foi feita uma corrida de kart. A empresa ainda aluga a quadra de futebol próximo a empresa para promover a prática de esportes
    RESULTADOS: maior disposição e comprometimento dos funcionários e prêmios de empresa inovadora e como
    a melhor da área para se trabalhar

    DEDIC

    SETOR: telemarketing
    N° DE FUNCIONÁIROS: 17.600 no Brasil
    AÇÕES PARA MOTIVAÇÃO: Sala de descompressão, massagem antes, durante e depois do expediente, coral e ginástica laboral. As massagens são realizadas por profissionais especializados (reflexologia
    e shiatsu) com o objetivo de proporcionar relaxamento e podem ser feitas durante o expediente ou quando o funcionário se sentir estressado
    RESULTADOS: Maior produtividade, com um absenteísmo (faltas) de 4%, enquanto a média do mercado é de 10% a 11%.
    Com menos faltas, a empresa teve uma redução nos custos de cerca de 50%.

    DHL

    SETOR: logística
    Nº DE FUNCIONÁRIOS: 900
    AÇÕES PARA MOTIVAÇÃO: convênios com academias de ginástica, agências de viagem, cinemas e teatros para descontos aos funcionários. Massagem para todos, com horários especiais para os que trabalham
    no setor de atendimento ao cliente, e atendimento de nutricionista. Campeonatos de futebol interno. Palestras para ajudar no bem-estar e saúde dos empregados.
    RESULTADOS: 70% de aprovação dos funcionários e maior comprometimento com as tarefas diárias e empresa

    TECAD

    SETOR: imobiliário
    N° DE FUNCIONÁRIOS: 50
    AÇÕES PARA MOTIVAÇÃO: Há três anos realiza duas viagens por ano de confraternização dos funcionários com os familiares. A empresa custeia transporte, estadia e alimentação. A viagem não é obrigatória,
    mas a maioria participa. O benefício é estendido aos profissionais autônomos, como os corretores e os motoqueiros
    RESULTADOS: Melhora na produtividade, rotatividade pequena, ou seja, as pessoas trocam menos de emprego; incidência pequena de faltas e de doenças

    DIGITALE

    SETOR: agência de publicidade digital
    Nº DE FUNCIONÁRIOS: 10
    AÇÕES PARA MOTIVAÇÃO: videogame e DVD podem ser usados em qualquer horário no espaço de descanso. Empresa ainda tem um programa no qual os funcionários indicam um colega como empregado do mês
    e o vencedor ganha prêmios, como ingressos para cinema, final de semana em hotel e até viagem de balão
    RESULTADOS: A equipe fica mais relaxada para cumprir as metas e a empresa consegue reter os talentos

    HOSPITAL OSWALDO CRUZ

    SETOR: saúde
    Nº DE FUNCIONÁRIOS: 1.559
    AÇÕES PARA MOTIVAÇÃO: espaço de 700 m2 com academia, salão de beleza, cybercafé e sala de vídeo e descanso para os funcionários, com preços subsidiados. Também há um centro médico separado para a saúde do empregado, com programas antitabagismo e contra a obesidade
    RESULTADOS: 98% de aprovação dos pacientes/clientes

    SANTANDER REAL

    SETOR: financeiro
    N° DE FUNCIONÁRIOS: 53 mil

    AÇÕES PARA MOTIVAÇÃO: Semana Santander com atividades esportivas e de ação social; ingressos para museus, shows, cinemas, corrida de Fórmula 1 e outros espetáculos que o banco patrocina. Participação de funcionários em maratonas de rua, aulas de ioga, meditação durante o expediente, torneios esportivos e coral. A instituição ainda paga 50% da academia de ginástica do funcionário para estimular a qualidade de vida.

    RESULTADOS: Níveis de satisfação altíssimos com filas de espera de funcionários querendo participar das atividades. Melhor produtividade e satisfação do funcionário levou a uma melhora no atendimento ao clientes.

    Artigo do site: http://www.jt.com.br

    Por Luciele Velluto e Priscila Dadona (26.07.2009)

  • Artigos 16.07.2009 3 Comments

    PONTOS PRINCIPAIS

    A recuperação de treinos diários ou competições intensas é melhor quando os atletas consomem uma dieta rica em carboidratos. O efeito mais importante dessa dieta é maximizar os estoques de glicogênio nos músculos. Aproximadamente 10 g de carboidratos por kg de peso corporal deve ser suficiente para repor os estoques de glicogênio após uma sessão de treinos pesados.

    O glicogênio muscular pode ser reposto no prazo de 24 h quando se ingere uma quantidade suficiente de carboidratos provenientes da dieta.

    Os carboidratos devem ser consumidos imediatamente após o exercício e em seguida, em intervalos de 30 minutos, por aproximadamente 5 horas. Essa dieta de “recuperação precoce” deve oferecer o equivalente de 1 – 1,2 g de carboidratos por kg de peso corporal a cada hora.

    A restauração dos estoques de glicogênio muscular pode demorar mais quando o exercício causa lesão e dores musculares.

    A reidratação após o exercício é maximizado quando os atletas ingerem uma quantidade de líquidos (uma bebida esportiva com eletrólitos suficientes é melhor que água) equivalente a 150% da perda do peso corporal.

    INTRODUÇÃO

    Para maximizar o treino, atletas costumam ter que se recuperar rapidamente de períodos de treino a fim de participar da sessão seguinte, principalmente se isso acontecer no mesmo dia. Além disso, em algumas situações, como torneios de luta, de futebol e de atletismo, os atletas podem ter que competir todos os dias (e com freqüência até mais que uma vez por dia) por diversos dias, fazendo com que a otimização da recuperação seja essencial para manter o desempenho. Isso também é importante para os “atletas” de finais de semana e para aqueles que participam de esportes e exercícios não-competitivos porque estimula a prática contínua. Isso é particularmente importante nos programas gerais de fitness nos quais os participantes precisam de uma boa dose de incentivo para praticar exercícios regularmente, como parte do estilo de vida.

    As estratégias para otimizar a recuperação pós-exercício dependem especificamente do esporte específico ou tipo de exercício, sua intensidade e duração e do intervalo entre as sessões de treino ou competições. A recuperação bem-sucedida envolve muitos processos fisiológicos e metabólicos que atuam em sincronia para preparar o atleta para a próxima sessão de exercício. Entretanto, os requisitos essenciais para a recuperação bem-sucedida a curto prazo são (1) ressíntese dos estoques de carboidratos do organismo, (2) reidratação e (3) descanso. Para a recuperação a longo prazo, ou seja, dias ou semanas, também é importante maximizar a síntese muscular de proteínas , uma consideração importante, mas não totalmente estudada neste artigo.

    Para a maioria dos atletas, a recuperação com êxito significa a restauração da capacidade do desempenho e do desejo de continuar treinando, preparando-lhes para a competição. Portanto, esta breve revisão vai enfatizar apenas os estudos que avaliaram a influência da nutrição em períodos de recuperação a curto (4-5 horas) e médio (24 horas) prazo após exercícios de ritmo constante, tais como corrida e protocolos que mimetizam as demandas físicas de esportes tais como o futebol e o basquetebol.

    REVISÃO DAS PESQUISAS

    O Papel Crítico do Glicogênio Muscular no Metabolismo Durante Exercícios Intensos

    Durante o ciclismo ou corrida de ritmo constante em intensidade moderada, ex., aproximadamente 70% do VO2 máximo, os carboidratos e as gorduras são os principais combustíveis para a produção de energia. A contribuição de carboidratos provem principalmente dos estoques de glicogênio no músculo esquelético e a da gordura, da oxidação de ácidos graxos provenientes de células do tecido adiposo, assim como de triglicerídios intramusculares. O glicogênio muscular é o principal responsável pelo metabolismo durante exercícios de alta intensidade que duram mais que aproximadamente 30 segundos, com contribuição, em menor escala, da glicose e ácidos graxos presentes no sangue. Conforme aumenta a duração do exercício, há uma queda progressiva dos estoques de glicogênio muscular e a contribuição da oxidação de ácidos graxos aumenta na tentativa de garantir a produção rápida e contínua de ATP. Entretanto, essa “up-regulation” do metabolismo de gorduras costuma ser inadequado para atender aos requisitos aumentados da produção de ATP para exercícios intensos. A contribuição da glicemia para o metabolismo muscular aumenta, mas também é inadequada para sustentar o exercício de alta intensidade, mesmo quando a glicemia é mantida elevada durante todo o exercício por meio da infusão de glicose (Claassen e col., 2005). Como conseqüência da queda da taxa de produção de ATP, o atleta não mais consegue sustentar a demanda da intensidade dos exercícios e chega a fadiga (Hargreaves, 2005).

    Maximizando a Recuperação do Glicogênio Muscular: Ingerindo Carboidratos na Fase Inicial da Recuperação

    O processo de ressíntese de glicogênio começa imediatamente após o exercício e é mais rápido nas primeiras 5-6 horas de recuperação (Goforth e col., 2003; Piehl, 1974), portanto não é de se surpreender que a ingestão de carboidratos imediatamente após o exercício acelera esse processo. Como revisado por Ivy (1991), os primeiros estudos sobre a ressíntese de glicogênio pós-exercício sugerem que a melhor quantidade possível de carboidratos é de aproximadamente 1 a 1,5 g de carboidratos/kg de peso corporal, consumidos imediatamente após o exercício e em intervalos a cada 2 horas até a refeição seguinte. Altas taxas de ressíntese de glicogênio muscular também podem ser conseguidas quando o carboidrato é consumido mais freqüentemente, por exemplo, 1,2 g/kg/h a cada 30 minutos durante um período de recuperação de 5 horas (Van Loon e col., 2000b).

    Maximizando a Recuperação do Glicogênio Muscular: A Carga de Carboidratos nos Dias pós Exercícios Exaustivos

    Está bem claro que uma dieta rica em carboidratos após o exercício intenso prolongado, i.e., a carga de carboidratos (carbohydrate loading) eleva as concentrações de glicogênio muscular para níveis acima do normal (Bergstrom e col., 1967). Sherman e col. (1981) introduziram um método de atingir a “supercompensação” das concentrações normais de glicogênio muscular que era mais aceitável aos atletas que os níveis recomendados por Bergstrom e col. (1967) (Sherman e col., 1981). Os indivíduos que participaram do estudo de Sherman diminuíram a intensidade e volume do treino durante a semana antes da competição e também aumentaram o teor de carboidratos da dieta para 9-10 g/kg/dia nos 3-4 dias que antecediam o evento. Esse foi um estudo importante, não apenas porque demonstrou a eficácia de uma abordagem mais aceitável para se promover a carga de carboidratos, mas também porque foi um dos primeiros a mostrar que a carga de carboidratos poderia produzir altas concentrações de glicogênio muscular após a corrida.

    Os atletas têm disposição para continuar treinando mesmo enquanto estão fazendo a carga de carboidratos mas temem que o treino pode retardar a reposição dos estoques de glicogênio muscular. Realmente, parece haver um retardo na ressíntese de glicogênio na primeira hora de recuperação enquanto praticam exercícios, mesmo que de baixa-intensidade (40-50% de VO2max) comparado a recuperação passiva (Choi e col., 1994), mas pesquisas mais recentes sugerem que sessões diárias de 20 minutos de exercícios leves (~ 65% de VO2max) não limitam o processo de supercompensação (Goforth e col., 2003). Além disso, as altas concentrações de glicogênio muscular dadas pela carga de carboidratos permanecem altas por 3-4 dias, mesmo quando a quantidade de carboidratos consumida passa de 80% para 60% da ingestão energética diária.

    A maioria dos estudos sobre a recuperação das concentrações de glicogênio após o exercício usou homens como amostra. Os primeiros estudos sobre a carga de carboidratos em mulheres sugerem que elas não conseguiram aumentar a concentração de glicogênio nos músculos (Tarnopolsky e col., 1990), ou pelo menos, não da mesma maneira que os homens (Walker e col., 2000). Entretanto, as pesquisas subseqüentes demonstraram que quando a ingestão de carboidratos em homens e mulheres foi cuidadosamente pareada, havia um aumento dos estoques de glicogênio em valores acima do normal para ambos os sexos (James e col., 2001).

    Maximização da Recuperação para Acentuar o Desempenho do Exercício Subseqüente

    Nos estudos de desempenho do exercício, os pesquisadores costumam pedir que os indivíduos completem uma quantidade fixa de trabalho o mais rápido possível (ex. provas de tempo) ou exercícios que sejam feitos pelo maior período de tempo possível em ritmo ou potência fixas (i.e. provas de endurance ou provas de ritmo constante). Provavelmente, as provas de tempo representam os tipos de desempenho de atletas individuais em eventos de corrida e ciclismo com mais exatidão, mas provas de endurance podem ser modelos mais apropriados para o estudo da capacidade de os atletas resistirem aos exercícios de alta intensidade em esportes tais como futebol e hóquei de campo.

    Suplementação de Carboidratos durante 24 horas de Recuperação: Exercícios de Ritmo Constante

    O consumo da dieta rica em carboidratos durante as primeiras 24 horas após o exercício intenso recupera as concentrações de glicogênio muscular para níveis normais (Goforth e col., 2003; Keizer e col., 1987). De maneira interessante, Keizer e col. observaram que quando se permitia que os participantes comessem o que quisessem, eles não conseguiam repor as concentrações de glicogênio muscular após 22h (Keizer e col., 1987). Portanto, para maximizar a recuperação do glicogênio, é essencial prescrever e monitorar cuidadosamente a quantidade de carboidratos que os atletas consomem durante o período de recuperação.

    A pergunta que os atletas se fazem é se a adoção da prática da carga de carboidratos resultará na recuperação do desempenho. Infelizmente, há apenas poucos estudos que consideraram o impacto da carga de carboidratos no desempenho nas 24 horas seguintes. Em estudo realizado por Fallowfield e Williams (1993), a recuperação da capacidade de correr em provas de endurance foi bem sucedida 22 horas após o exercício prolongado. Quando os participantes correram em uma esteira a 70% do VO2max por 90 minutos ou até a fadiga (o que ocorresse primeiro) e receberam uma dieta ou de alto teor de carboidratos (9 g/kg) ou uma dieta mista isoenergética que incluía 6 g de carboidratos/kg durante um período de recuperação de 22 horas, apenas aqueles que receberam a dieta rica em carboidratos conseguiram atingir o tempo da corrida de 90 minutos. Os atletas que consumiram a dieta mista conseguiram completar apenas 78% do exercício realizado no dia anterior, apesar de o teor de carboidratos da dieta de recuperação ser igual à ingestão usual desses nutrientes (Fallowfield & Williams, 1993) (Figura 1).

    FIGURA 1. A recuperação da capacidade de corrida em prova de endurance, 22 horas após a primeira corrida, que foi na esteira a 70% do VO2max por 90 minutos ou até a fadiga, o que acontecesse primeiro. O valor energético das dietas com alto teor de carboidratos 9 g/kg/dia) e as dietas de recuperação mista eram iguais.

    O tipo de carboidrato consumido durante a recuperação também pode influenciar a taxa de ressíntese de glicogênio muscular e o desempenho posterior. Burke e col. (1993) relataram que a ressíntese do glicogênio muscular após 24h de recuperação de exercícios prolongados foi maior quando os participantes consumiram uma dieta de recuperação contendo que com a dieta com carboidratos de baixo índice glicêmico. Apesar de não terem avaliado a capacidade de a amostra exercitar-se após o período de recuperação de 24h, é razoável esperar que a capacidade de endurance tenha aumentado com estoques mais altos de glicogênio após a ingestão da dieta com carboidratos de alto índice glicêmico (Burke e col., 1993).

    Diferentemente dos resultados obtidos por Burke e col. (1993), Stevenson e col. (2005a) observaram que o tempo até exaustão correndo na esteira demorava 12 minutos a mais e que a oxidação de gordura era maior após a dieta de recuperação com carboidratos de baixo índice glicêmico que com a de alto índice glicêmico (Stevenson e col., 2005). A maior taxa de oxidação de gordura durante a corrida até a exaustão após a dieta de recuperação contendo carboidratos de baixo índice glicêmico provavelmente compensaram os estoques mais baixos de glicogênio pré-exercício. Também, é interessante observar que os corredores relataram que nunca sentiram fome quando seguiam a dieta contendo carboidratos de baixo índice glicêmico, mesmo após o jejum de 12 horas antes da corrida e correr até a exaustão no dia seguinte. Mas eles sentiam fome quando consumiam a dieta de recuperação com carboidratos de alto índice glicêmico com níveis equivalentes de valor energético e composição de macronutrientes da dieta com carboidratos de baixo índice glicêmico. Portanto, pode ser mais eficaz consumir os nas primeiras horas após o exercício e depois mudar para refeições com carboidratos de baixo índice glicêmico no restante do período. Dessa maneira, os carboidratos de alto índice glicêmico contribuem mais para ressíntese mais rápida e precoce de glicogênio, enquanto os carboidratos baixo índice glicêmico podem continuar a oferecer energia assim como contribuir para a sensação de saciedade. Além disso, uma refeição à noite contendo carboidratos baixo índice glicêmico diminui o pico da glicemia em resposta ao café da manha padrão, com carboidratos de alto índice glicêmico, na manhã seguinte e pode, portanto, intensificar a oxidação de gorduras para os próximos exercícios (Stevenson e col., 2005b). Pesquisas adicionais são necessárias para determinar a mistura de carboidratos que maximiza a restauração do glicogênio e desempenho.

    A suplementação de Carboidratos durante 4 Horas de Recuperação: Exercícios de Ritmo Constante

    Imediatamente após o exercício, o consumo de bebidas contendo carboidratos acelera a ressíntese do glicogênio muscular, mesmo durante um período de recuperação tão curto quanto 4 horas, mas isso muda o desempenho para o próximo exercício? Fallowfield e col. (1995) tentou responder essa pergunta com um grupo de corredores de endurance que primeiro correram em uma esteira a 70% do VO2max por 90 minutos ou até a fadiga (o que ocorresse primeiro). Imediatamente após o exercício e 2 horas depois, beberam ou um placebo ou uma bebida esportiva contendo aproximadamente 1 g de carboidratos/kg de peso corporal. Após um período de recuperação de 4 horas, ambos os grupos correram até a exaustão nas mesmas velocidades anteriores da esteira. O grupo que tomou a bebida esportiva correu 22 minutos a mais que o grupo que recebeu o placebo (Fallowfield e col., 1995).

    FIGURA 2. Tempo até a exaustão a 70% do VO2 máx 4 horas após correr a 70% do VO2 max por 90 minutos ou até a fadiga, o que ocorresse primeiro. Um grupo tomou uma bebida esportiva (6,9% de carboidratos) enquanto o outro grupo bebeu placebo (Fallowfield e col., 1995).

    É interessante observar que a ingestão de quantidades maiores de carboidratos imediatamente após o exercício pode não ser mais benéfica que uma quantidade moderada. Por exemplo, Wong e Williams (2000) ofereceram 50 g de carboidratos na forma de uma bebida eletrolítica contendo 6,5% de carboidratos a um grupo de corredores imediatamente após correrem 90 minutos na esteira (70% do VO2 máx). Depois reidrataram os atletas com água ou com uma bebida contendo carboidratos, em quantidade suficiente para cobrir 150% do peso corporal perdido durante a corrida inicial. Surpreendentemente, não houve diferença nos tempos de corrida até a exaustão quando os corredores consumiram 175 g ou 50 g de carboidratos durante o período de recuperação de 4 horas (Wong & Williams, 2000). Ainda assim, houve um aumento maior na concentração do glicogênio muscular durante as 4 horas de recuperação quando os corredores ingeriram mais carboidratos (Tsintzas e col., 2003). Esses resultados são paradoxais, de certa maneira, porque seria razoável esperar uma resposta melhor na capacidade de exercício após o tratamento que mais aumenta os estoques de glicogênio muscular. Entretanto, a ingestão pós-exercício de uma bebida esportiva bem-formulada não melhora a capacidade de endurance nos exercícios subseqüentes, mas é preciso mais informações para prescrever as quantidades ótimas de bebida para cada atleta. A proteína deve ser acrescentada aos suplementos de carboidratos? A insulina tem influência positiva na ressíntese de glicogênio. Algumas vezes, o acréscimo de proteínas e alguns aminoácidos aos carboidratos promovem um aumento nas concentrações de insulina, tornando-as maiores que as obtidas com a mesma quantidade de carboidratos (van Loon e col., 2000a; Zawadzki e col., 1992). Ivy e col. foram um dos primeiros a relatar que o consumo de uma mistura de carboidratos-proteína imediatamente após o exercício aumentava a taxa de ressíntese do glicogênio muscular além daquela observada apenas com carboidratos ( Ivy e col., 2002; Zawadzki e col., 1992). Em um dos primeiros estudos realizados por Zawadzki e col. (1992), os indivíduos participavam de ciclismo prolongado para depletar o glicogênio muscular e depois ingeriam, em três momentos diferentes, ou 112 g de carboidratos ou 40,7 de proteína ou 112 g de carboidratos mais 40,7 g de proteínas imediatamente após o exercício e 2 horas depois. Observaram que a taxa de ressíntese de glicogênio durante as 4h de recuperação foi 38% mais rápida após a mistura de carboidratos-proteína (Zawadzki e col., 1992). Apesar de a mistura de carboidratos-proteína e carboidratos isolados apresentar o mesmo teor desse nutriente, o valor energético total não era igual, o que pode ter contribuído para as diferenças observadas nas taxas de ressíntese de glicogênio. Em estudo posterior, realizado por Ivy e col. (2003), comparou-se a influência da ingestão de uma mistura de carboidratos-proteína em uma bebida esportiva na capacidade de endurance durante um período de 4h de recuperação de ciclismo prolongado. Observaram um aumento de 55% na capacidade de endurance quando os indivíduos consumiam a mistura de carboidratos-proteína durante o período de recuperação. Entretanto, a quantidade de carboidratos na mistura carboidratos-proteínas era muito maior que a de carboidratos na bebida esportiva; além disso, a mistura de carboidratos-proteína continha mais energia (~330 kcal) e o estudo foi fraco por comparar coisas diferentes (Williams e col., 2003). Nem todos os autores chegaram a conclusão de que a ressíntese de glicogênio após a ingestão de misturas de carboidratos-proteína imediatamente após o exercício é melhor que o consumo de quantias isoenergéticas apenas de carboidratos (Carrithers e col., 2000; Jentjens e col., 2001; van Hall e col., 2000; van Loon e col., 2000b) . Além disso, como descrito abaixo, diversos pesquisadores concluíram que o desempenho de exercícios após o período de recuperação não melhorou mais com as misturas carboidratos-proteína comparado à ingestão isolada de carboidratos, principalmente se as bebidas não apresentarem o mesmo valor energético. Em dois estudos semelhantes, realizados por Betts e col (2005b), os participantes correram em vez de praticar ciclismo para se avaliar as influências de uma mistura de carboidratos-proteína e a mesma quantia de carboidratos no tempo de endurance ao correr a 85% do VO2 max, 4h após uma corrida de 90 minutos na esteira a 70% do VO2 max (Betts e col., 2005b). Uma solução de carboidratos a 9,3% ou a mesma solução suplementada com 1,5% de proteína foi usada para oferecer carboidratos no estudo inicial a uma taxa de 1,2 g/kg de peso/hora nos dois estudos. Os corredores ingeriram as soluções imediatamente após 90 minutos de corrida e depois em intervalos a cada 30 minutos durante o período de recuperação de 4 horas. Apesar de o teor de carboidratos das soluções ingeridas serem equivalentes, a mistura de carboidratos-proteína apresentava 17% a mais de energia. Houve uma grande variação nos tempos de corrida até a fadiga nos dois estudos, mas não houve diferenças gerais na capacidade de endurance (carboidratos: 14,5 minutos x carboidratos-proteína: 18 minutos). Neste estudo inicial, muitos indivíduos apresentaram queixas de desconforto abdominal, provavelmente em conseqüência das grandes quantidades de carboidratos ingeridas durante o período de recuperação. Portanto, um segundo estudo foi realizado usando exatamente o mesmo exercício e protocolos de recuperação com a mesma mistura de carboidratos+proteína, mas nessa ocasião, os corredores ingeriram pequenas quantias de carboidratos (0,8 g/kg/h). Novamente, não houve diferenças significativas nos tempos de corrida até a fadiga (carboidratos: 18 min x carboidratos/proteína: 19,5 min). Em outro estudo, Betts e col (2005a) usaram um desenho semelhante, mas a corrida até a exaustão após a recuperação de 4 horas foi a 70% do VO2 max em vez de 85% para permitir períodos de corrida mais longo e portanto, aumentar as demandas dos estoques de carboidratos dos corredores. Seis corredores completaram as três provas. Em uma delas, ingeriram uma mistura de carboidratos-proteínas (0,8 g de carboidratos/kg/h) mais a proteína isolada do soro do leite a uma taxa de 0,3 g/kg/h); na segunda prova, ingeriram a mesma quantidade de carboidratos que na prova de carboidratos-proteínas (0,8 g/kg/h) e na terceira ingeriram carboidratos para atingir valores equivalentes de energia ao da mistura de carboidratos/proteínas (1,1 g de carboidratos/kg/h). Após 4 h de recuperação, os tempos de corrida até a fadiga foram significativamente maiores nas provas com carboidratos-proteínas e com o mesmo teor de energia que na prova com baixo teor de carboidratos, ou seja, 91 min, 99,9 min e 83,7 min, respectivamente. Entretanto, não houve diferenças significativas entre os tempos de corrida até a fadiga entre as provas contendo carboidratos-proteína e isoenergética apenas de carboidratos (Betts e col., 2005a), e nem na taxa de ressíntese de glicogênio muscular (Betts e col., 2006). Millard-Stafford e col. (2005), que usaram uma prova de tempo de 5-km como teste de desempenho, também não observaram qualquer efeito benéfico na suplementação de bebidas esportivas com proteínas. Em resumo, parece não haver nenhuma vantagem no desempenho ao se ingerir uma mistura de carboidratos-proteina comparada à solução de carboidratos isoenergética durante um período de 4 horas de recuperação após o exercício.

    Parece haver benefícios indiretos da ingestão da mistura de carboidratos-proteina que ainda não foram sistematicamente confirmadas. Por exemplo, alguns autores relataram que a intensidade da dor muscular pós-exercício foi geralmente menor quando uma solução carboidratos-proteína foi usada que quando se usou apenas carboidrato (Millard-Stafford e col., 2005). Ainda não se sabe exatamente como esse efeito ocorre. Obviamente, o consumo de uma mistura de carboidratos-proteína durante a recuperação pode influenciar o equilíbrio protéico pós-exercício contribuindo com o substrato para síntese protéica, o que envolve benefícios a longo, e não a curto prazo, para os atletas (Gibala, 2002).

    Suplementação de carboidratos durante 24 horas de recuperação pós-exercícios do tipo stop and go

    Apesar de haver muitos participantes em esportes que incluem atividades contínuas, tais como uma corrida de longa distância e ciclismo, há um número muito maior de atletas que participam de esportes do tipo stop and go e também de sprints múltiplos, tais como, futebol, , rugby e tênis. O exercício prolongado, intermitente e de alta intensidade que faz parte desses esportes stop and go diminui os estoques de glicogênio muscular e compromete o desempenho, tal como os exercícios de ritmo constante (Balsom e col., 1999). Por exemplo, as concentrações de glicogênio muscular de jogadores profissionais de futebol encontram-se bem reduzidas após 90 minutos de jogo (Jacobs e col.,1982; Saltin, 1973). Esta bem claro que esses atletas que começaram o jogo com concentrações modestas ou baixas de glicogênio muscular não conseguem se envolver totalmente no jogo por causa do início precoce de fadiga (Saltin, 1973).

    Em um estudo sobre nutrição e desempenho especifico ao futebol, Bangsbo e col. (1992) mostraram que quando os jogadores consumiam uma dieta rica em carboidratos por 48h antes de uma série de testes específicos ao futebol, sua capacidade de endurance durante corrida prolongada, intermitente e de alta intensidade na esteira foi significativamente melhor que com uma dieta normal mista.

    Usando a corrida intermitente e de alta-intensidade (shuttle run) como um protocolo de exercício que mimetiza os padrões de atividades que costumam se repetir no futebol, Nicholas e col (1997) examinaram a influência de diferentes estratégias nutricionais na capacidade do exercício durante os últimos 15 minutos de um teste de 90 minutos. Todos os indivíduos completaram 75 min do teste e depois tinham que completar 20 metros de corrida (indo e vindo) alternando sprints e jogging, até atingirem o ponto de fadiga. A capacidade de endurance foi avaliada como o teste shuttle run a partir dos 75 minutos. A recuperação da capacidade da corrida foi atingida após 22 horas quando os indivíduos consumiram a dieta que oferecia 10g/kg/dia de carboidratos (Nicholas e col., 1997). Entretanto, quando consumiram a quantidade normal de carboidratos com acréscimo de proteínas e gorduras para que o valor calórico fosse equivalente ao da dieta de recuperação com carboidratos, eles não conseguiram correr tanto quanto no dia anterior.

    FIGURA 3. Recuperação da capacidade de endurance durante a corrida intermitente, de alta-intensidade, 24 horas após a mesma corrida. As dietas com alto teor de carboidrato (9 g/kg/dia) e mista eram isoenergéticas (Nicholas e col., 1997).

    Suplementação de carboidratos durante 4 horas de recuperação após exercícios do tipo stop and go

    Esportes profissionais de equipes do tipo stop and go, tais como, futebol, rugby, e basquetebol, costumam ter apenas um jogo por dia. Entretanto, em torneios ou campeonatos, os atletas que praticam alguns esportes podem ter que competir mais que uma vez com apenas algumas horas de recuperação entre os jogos. Na ausência de estudos sobre a influência nutricional na recuperação sob estas circunstâncias, parece razoável sugerir que atletas de esportes do tipo stop and go deveriam implementar as mesmas recomendações nutricionais aplicadas aos atletas de endurance. Eles foram aconselhados a ingerir bebidas esportivas bem formuladas imediatamente após o exercício e em intervalos a cada 30 minutos durante o período de recuperação.

    Fatores que Podem Retardar a Recuperação

    A reposição de glicogênio após exercícios intensos prolongados será obviamente mais lenta quando a ingestão de carboidratos for baixa ou restrita durante a recuperação (Fournier e col., 2004). A recuperação do glicogênio muscular também pode ser tardia quando os exercícios prolongados envolvem uma quantidade significativa de ações musculares excêntricas porque esse tipo de atividade causa danos às membranas musculares e promove a instalação tardia da dor muscular (Asp e col., 1998; Costill e col., 1990; O’Reilly e col., 1987). (Ações excêntricas são aquelas nas quais os músculos são alongados enquanto produzem força, ou seja, as ações dos flexores do cotovelo enquanto se abaixa um peso ou dumbbell). Além disso, segundo Asp e col. (1998) as contrações excêntricas realizadas anteriormente durante o exercício com a perna aumentaram ainda mais a queda da concentração do glicogênio muscular que na perna contralateral que realizou movimentos concêntricos. As concentrações mais baixas de glicogênio após o exercício excêntrico foi acompanhado por uma redução acentuada na produção de energia e na capacidade de endurance nos dois exercícios concêntricos seguintes para as pernas.

    Este pior desempenho foi atribuído à redução na concentração e aumento na taxa de uso do glicogênio (Asp e col., 1998).

    Há um componente excêntrico às ações do músculo da perna durante a corrida e isso pode explicar a recuperação mais lenta do glicogênio muscular após uma corrida prolongada, tais como corridas de maratona (Sherman e col., 1983). Há relatos de que a ressíntese do glicogênio muscular dois dias depois da maratona competitiva representava apenas 70% dos valores observados antes da prova, apesar de os corredores ingerirem uma dieta rica em carboidratos (7g/kg). Houve uma reposição dos estoques de glicogênio muscular, atingindo os altos níveis observados antes da prova após sete dias de recuperação (Asp et al 1997). Essa informação pode ser usada no planejamento da estratégia de recuperação porque os atletas que apresentam instalação tardia de dores musculares podem demorar mais tempo que o normal para repor seus estoques de glicogênio muscular e o condicionamento físico para provas de endurance.

    REIDRATAÇÃO

    Imediatamente após o exercício, a maioria dos atletas geralmente prefere ingerir líquidos em vez de consumir alimentos sólidos. Essa escolha ajuda a reidratar o atleta, e é parte essencial do processo de recuperação. O volume e tipo de líquidos ingeridos, assim como horários para ingestão durante períodos curtos de recuperação (ex.: de apenas algumas horas) são considerações importantes para a reidratação bem-sucedida e exercícios seguintes. Para hidratar plenamente os atletas a curto prazo, eles devem ingerir o equivalente a 150% do volume do peso corporal perdido pelo suor (Shirreffs & Maughan, 2000) devido à maneira que os rins controlam a carga de líquidos. O líquido mais eficaz para reidratar atletas após o exercício é a bebida esportiva bem-formulada em vez de água (Gonzalez-Alonso e col., 1992). A ingestão de bebidas esportivas imediatamente após o exercício oferece não apenas líquidos, mas também o carboidrato que ajuda a iniciar o processo de ressíntese de glicogênio e o sódio que promove a retenção dos líquidos no corpo.

    Parece que quando a recuperação ocorre em prazo curto, por exemplo, ~4 h, os atletas devem ingerir uma quantia adequada de bebidas esportivas (150% do peso corporal perdido) em porções distribuídas durante o período de recuperação; eles não devem simplesmente consumir a bebida o mais rápido possível. Quando se permite que os atletas bebam o volume necessário de uma bebida esportiva voluntariamente, eles consomem a maior parte imediatamente após o exercício e sua capacidade de endurance durante a sessão seguinte de exercícios diminui comparada à ingestão de líquidos que ocorre no decorrer de 4h de recuperação, como prescrito (Wong e col., 1998).

    Apesar de a reidratação bem-sucedida poder ser alcançada em prazo de algumas poucas horas após um longo período de sudorese, há esportes nos quais o tempo é muito limitado para completar esse processo. Em esportes com categorias de peso, tais como luta, boxe, remo e eventos de hipismo, é comum os atletas se desidratarem deliberadamente para conseguir diminuir o peso corporal e assim passar na certificação do peso. Pode ser difícil promover a reidratação no curto período de tempo após a pesagem e antes da competição, mas deve-se tentar isso para o desempenho com sucesso. Não há nenhuma recomendação simples e adequada de reidratação para todas as circunstâncias porque cada esporte tem suas próprias regras com relação ao intervalo de tempo entre a pesagem e a competição, e os atletas têm diferentes necessidades de perda de peso. Portanto, após considerar os requisitos de cada esporte, os atletas devem procurar ajudar a desenvolver uma estratégia de reidratação que seja eficaz durante a competição (Walberg-Rankin, 2000).

    RESUMO

    A reposição dos estoques de glicogênio muscular sustenta a recuperação da capacidade de endurance para exercícios moderados ou de alta intensidade. Portanto, a ingestão de uma quantia suficiente de carboidratos após exercícios intensos é parte essencial de qualquer estratégia de recuperação. A ingestão necessária de carboidratos para repor grandes quedas de glicogênio muscular em 24 h é de aproximadamente 10 g/kg/dia. Quando a ingestão diária de carboidratos é menor que 4 g/kg/dia, ela é insuficiente para manter o exercício diário sub-máximo prolongado (Kirwan e col., 1988; Pascoe e col., 1990). Quando a recuperação é de curta duração, ainda há outra vantagem que pode ser obtida por meio do consumo de bebidas esportivas, que podem oferecer o equivalente a 1 – 1,2 g de carboidratos/kg/h porque isso vai acelerar a ressíntese de glicogênio, ajudar o processo de reidratação e beneficiar o desempenho durante o exercício seguinte. Quando atletas apresentam dor muscular após o exercício, sua recuperação pode ser retardada, não só por causa da dor em si, mas também porque a taxa de ressíntese de glicogênio pode estar mais lenta.

    SUPLEMENTO USANDO A NUTRIÇÃO PARA ACELERAR A RECUPERAÇÃO

    INTRODUÇÃO

    Na maioria dos eventos esportivos, o glicogênio muscular (a forma na qual o carboidrato é armazenado no organismo) é o combustível mais crítico usado para produzir energia para o movimento.

    Com o aumento da duração do exercício, aumenta a probabilidade de que os estoques de glicogênio muscular serão reduzidos até que os músculos não mais consigam atender a demanda de energia, o que causa a fadiga.

    Se o glicogênio usado em um treino ou competição não for totalmente reposto antes do próximo dia de treino ou da próxima competição, é provável que o desempenho do exercício seja comprometido.

    Além da depleção de glicogênio, a desidratação é o principal fator que pode causar a queda do desempenho se não for feita adequadamente durante a recuperação por meio de estratégias adequadas de reidratação.

    Isso quer dizer que quanto maior a demanda do treino ou da competição, maior a quantidade de carboidratos dietéticos necessários para repor os estoques de glicogênio. Uma recomendação simples para a reidratação é “Atletas que suam muito devem beber muito líquido”.

    Esses princípios devem ser traduzidos em estratégias nutricionais que considerem a duração do período de recuperação, as demandas da sessão anterior de exercícios e os da sessão/competição seguintes. É certo que os atletas ingerem alimentos e não nutrientes, portanto, suas escolhas alimentares devem ser consideradas para que a estratégia de recuperação nutricional seja eficaz. Os exemplos seguintes são para atletas que passam por um programa diário intenso ou que competem diariamente em torneios.

    ESTRATÉGIAS DE RECUPERAÇÃO NUTRICIONAL

    Duração da Recuperação: 24 horas

    Quando os treinos terminam no período da manhã, os atletas devem descansar o restante do dia para repor os estoques de glicogênio e reidratar. Imediatamente após terminar a sessão de treino, devem consumir uma bebida esportiva que lhes ofereça o equivalente a aproximadamente 1 g de carboidratos/kg de peso corporal e beber a mesma quantidade em intervalos de hora em hora até a próxima refeição. As refeições do restante do dia devem conter carboidratos o suficiente para que a ingestão desses nutrientes em 24 horas seja de aproximadamente 8 – 10 g/kg. Para um atleta de 80 kg, isso representaria 640 – 800 g de carboidratos para as 24 h.

    A ingestão de uma bebida esportiva não é a única maneira conveniente de se atingir a recomendação de carboidratos nas primeiras horas de recuperação, mas isso vai contribuir para a reidratação e para ajudar a manter o balanço hídrico antes da próxima sessão de treino ou competição.

    Duração da Recuperação: 2- 4 horas

    Quando há duas sessões de treino no dia, costuma haver um intervalo de apenas 4 ou 5 horas entre elas, portanto o período de recuperação não é suficiente para repor os estoques de glicogênio do organismo. Além disso, períodos de recuperação de apenas 2 horas são comuns em torneios de luta e em outros eventos esportivos nos quais os atletas podem ter que competir várias vezes no mesmo dia. No entanto, mesmo nesse curto intervalo, os atletas podem repor uma quantidade significativa de glicogênio. Portanto, devem consumir 0,8-1,2 g de carboidratos/kg por hora em intervalos de 30 minutos para atingir a recuperação máxima de glicogênio muscular antes da próxima sessão de treinos. A maneira mais eficaz para se conseguir isso é consumir uma bebida esportiva para que recebam tanto os carboidratos quanto líquidos. A ingestão de líquidos deve ser equivalente a 150% do peso corporal perdido na sessão anterior – determinado pelo registro do peso corporal antes e depois do exercício. A estratégia nutricional vai garantir a otimização da ressíntese de glicogênio durante o curto período de recuperação. Imediatamente após o exercício, líquidos e não alimentos sólidos são a primeira escolha dos atletas, mas depois de desaquecerem, alimentos passam a ser mais atraente. Portanto, alimentos fontes de carboidratos facilmente digeridos devem ser consumidos, com o cuidado de não comer demais para evitar o desconforto abdominal. (Isso é especificamente importante para corredores e menos para ciclistas).

    Em muitos esportes com categorias de peso, há intervalos de 2 horas ou menos entre a pesagem e o início da competição. Esses atletas que usam a desidratação como método de ‘atingir o peso’ devem usar esse intervalo de tempo para repor os líquidos e carboidratos antes de competir. Ingestão de líquidos equivalente a 150% do peso corporal perdido é recomendada e esse volume deve ser ingerido em pequenas quantidades igualmente distribuídas por todo período antes da competição. Novamente, uma bebida esportiva deve ser a primeira escolha de líquidos não só porque vai promover a reidratação, mas também porque vai fornecer o carboidrato necessário.

    Treinos Diários

    A maioria das sessões de treinos diários antes do início da temporada não são tão intensas a ponto de depletar todos os estoques de carboidratos dos atletas. Entretanto, os atletas precisam conseguir lidar com dias sucessivos de treino a fim de melhorar sua condição física, além de desenvolver novas habilidades e permanecer saudável. Portanto, adotar uma estratégia de recuperação que se concentra na reposição de carboidratos e líquidos deve ser parte de um programa bem planejado de treino. Durante esse período de treino, os atletas têm a oportunidade de ingerir uma ampla gama de alimentos que oferecem as quantias necessárias de carboidratos. A quantidade de carboidratos necessária no período de recuperação é de aproximadamente 5-7 g/kg de peso corporal por dia. Os mesmos princípios nutricionais discutidos acima aplicam-se durante esse período de treino, ou seja, os atletas devem começar a repor seus estoques de carboidratos imediatamente após o exercício por meio do consumo de alguns carboidratos, ou seja, aproximadamente 0,8 – 1,2 g/kg de peso por hora a fim de ‘dar a largada ’ para o processo de ressíntese de glicogênio. Finalmente, se os atletas começam uma sessão de treino mais leves que no dia anterior e não restringiram sua ingestão alimentar, podem estar desidratados. Portanto, o monitoramento do peso corporal antes e depois dos treinos nos fornece informações sobre o balanço energético e funciona como um guia grosseiro sobre o estado de hidratação do atleta.

    Artigo do site: http://www.gssi.com.br

  • Artigos 16.07.2009 No Comments

    PONTOS PRINCIPAIS

    • A ingestão de carboidratos durante o exercício consegue retardar a instalação da fadiga e melhorar o desempenho de exercícios prolongados, de curta duração e de maior intensidade (ex. exercícios contínuos com duração de aproximadamente 1 hora e exercícios intermitentes de alta intensidade), mas os mecanismos envolvidos nessa melhora são diferentes.
    • Durante exercícios prolongados, parece que os benefícios da ingestão de carboidratos no desempenho são conseguidos por meio da manutenção ou aumento das concentrações plasmáticas de glicose e pela manutenção de altas taxas de oxidação de carboidratos, enquanto no exercício intenso, parece que a ingestão de carboidratos tem um efeito positivo no sistema nervoso central.
    • Carboidratos provenientes de uma única fonte, como a glicose, por exemplo, conseguem ser oxidados na taxa de aproximadamente 60 g/h.
    • Quando se ingere uma mistura de carboidratos (ex. glicose e frutose), as taxas de oxidação podem chegar a ultrapassar um pouco mais de 100 g/h, se grandes quantidades forem consumidas (ex. > 140 g/h).
    • É provável que a ingestão de uma solução de carboidratos muito concentrada e/ou com alta osmolalidade pode causar desconforto gastrointestinal.
    • A quantia de carboidratos que um atleta individual deve ingerir durante o exercício deve ser determinada por tentativa e erro, e deve haver um equilíbrio entre o aumento da disponibilidade de carboidratos durante o exercício e a minimização do desconforto gastrointestinal.

     INTRODUÇÃO

    Como descrito em detalhes posteriormente neste artigo, a ingestão de carboidratos durante exercícios de longa duração, com 2 horas ou mais, quase sempre retarda a instalação da fadiga e melhora o desempenho. Os carboidratos também podem ser benéficos durante exercícios contínuos mais intensos que duram aproximadamente 1 hora e durante exercícios intermitentes de alta intensidade. Nos exercícios de longa duração, uma maior contribuição de carboidratos exógenos (carboidratos ingeridos em bebidas ou outros alimentos) preservará o glicogênio hepático, evitando a queda da glicemia e ajudando a manter a alta taxa de oxidação de carboidratos necessária para manter a intensidade do exercício. Entretanto, mesmo quando os carboidratos são ingeridos, quase sempre há um balanço negativo de energia durante o exercício, ou seja, o gasto energético supera a ingestão calórica. Por exemplo, há trabalhos que mostram que nas principais provas de ciclismo com etapas (incluindo a Volta da França), os atletas ingerem uma média de 25 g de carboidratos por hora (Garcia-Roves e col., 1997). Isso representa uma ingestão calórica de apenas 100 Kcal/h, enquanto o gasto energético pode chegar ser, no mínimo, dez vezes maior. Em casos radicais de exercícios que duram 5-6 h, isso pode representar um balanço energético negativo de 4000-5000 kcal. O balanço energético negativo atingido durante provas extremamente longas era tradicionalmente compensado por um jantar excepcionalmente bem-servido antes da prova (Jeukendrup e col., 2000a); apesar disso, alguns atletas podem ter dificuldade para manter o balanço energético (Saris e col., 1989). É óbvio que a ingestão calórica durante a prova não precisa limitar-se apenas a carboidratos; gorduras e proteínas também podem ser ingeridas na tentativa de minimizar o balanço energético negativo. Infelizmente, a gordura e a proteína podem ser potentes inibidores do esvaziamento gástrico, retardando não só a oferta de energia, mas também de líquidos (Brouns & Beckers, 1993). Por isso, faz sentido aumentar a ingestão de carboidratos durante o exercício e dessa maneira, aumentar a oxidação de carboidratos pelos músculos acionados.

    Entretanto, a ingestão excessiva de carboidratos pode ter efeitos negativos; soluções altamente concentradas de carboidratos e bebidas com alta osmolalidade foram associadas ao desenvolvimento do desconforto gastrintestinal (Rehrer e col., 1992a). Portanto, os atletas devem atingir o equilíbrio adequado entre a ingestão suficiente de carboidratos para oferecer energia adicional, mas sem excessos, para não aumentar o risco do desconforto gastrintestinal. Há outros fatores que podem complicar essa questão: o desenvolvimento do desconforto gastrointestinal parece ser uma resposta altamente individual e dependente da intensidade e duração do exercício, estado de hidratação, condições ambientais e outros fatores.

    Como será discutido posteriormente, o mecanismo envolvido nos efeitos benéficos da ingestão de carboidratos para prática de exercícios que dure aproximadamente 1 hora e talvez para exercícios intermitentes (algumas vezes com duração maior que 1 h) parece ser diferente daquele presente nos exercícios contínuos prolongados e está associado aos efeitos no sistema nervoso central. Para exercícios de curta duração, a quantidade necessária de carboidratos a ser ingerida é menor comparada aos exercícios mais prolongados. Assim como ocorre nos exercícios prolongados, é possível que haja desconforto gastrintestinal se um atleta ingerir carboidratos em excesso durante exercícios de alta intensidade.

    O principal objetivo deste artigo é apresentar uma breve revisão da literatura científica relacionada aos efeitos da ingestão de carboidratos no desempenho, a ótima dose e o tipo de carboidrato ingerido durante os exercícios. O artigo também trata do metabolismo dos carboidratos, de distúrbios gastrintestinais durante o exercício prolongado, da relação entre a ingestão de carboidratos e oferta de líquidos, e da possíbilidade de que a ingestão de carboidrato durante o exercício possa afetar negativamente as adaptações genéticas ao treinamento físico.

    REVISÃO DA LITERATURA CIENTÍFICA

    Efeitos da Ingestão de Carboidratos no Desempenho

    Os efeitos benéficos da ingestão de carboidratos no desempenho de exercícios já foi bem descrito. Em estudos mais antigos, os efeitos ergogênicos da alimentação com carboidratos foram tipicamente observados durante exercícios que duram no mínimo 2 h (Bjorkman e col., 1984; Coyle e col., 1983; Hargreaves e col., 1984; Ivy e col., 1983; Murray e col., 1989; Neufer e col., 1987). Estudos mais recentes revelaram os efeitos positivos da alimentação com carboidratos durante exercícios de intensidade relativamente alta (>75% VO2max) com duração de aproximadamente 1 h (Anantaraman e col., 1995; Below e col., 1995; Carter e col., 2003; el-Sayed e col., 1997). Como exemplo, Jeukendrup e col. (1997) estudaram os efeitos da ingestão de carboidratos durante o equivalente a uma prova de 40 km com controle de tempo (~ 1 h), com ciclistas bem treinados, e os resultados mostraram que o desempenho melhorava em 2,3%. Entretanto, é importante relatar que outros pesquisadores não conseguiram detectar o efeito ergogênico das refeições com carboidratos para exercícios de alta intensidade (Clark e col., 2000; McConell e col., 2000; Powers e col., 1990). Carter e col. (2004b) concluíram que nenhum dos efeitos benéficos estavam relacionados à disponibilidade do substrato porque a infusão de carboidratos em altas taxas não interferiu no desempenho; em vez disso, esse grupo sugeriu que os efeitos podem ocorrer via sistema nervoso central (Jeukendrup e col., 1997).

    Consistente com esta idéia, nosso laboratório mostrou que enxaguar a boca com uma solução de carboidratos melhorava o desempenho de ciclistas em um teste com uma hora de duração em 2-3% mesmo quando o sujeito não chegava a engolir o carboidrato (Carter e col., 2004a). Essa melhora no desempenho teve a mesma magnitude daquela observada com ingestão de carboidratos durante exercício semelhante (Jeukendrup e col., 1997). Esses resultados sugerem a existência de receptores na boca que se comunicam com o cérebro para interferir no desempenho do exercício. Apesar de ainda não haver evidências diretas sobre esses receptores, está claro que o cérebro consegue perceber as mudanças na composição do conteúdo da boca e do estômago. Sabe-se que receptores orofaríngeos, incluindo aqueles localizados na cavidade oral, desempenham papéis importantes nas respostas de percepção durante a reidratação e exercícios no calor (Maresh e col., 2001; Riebe e col., 1997). Nesses estudos, as taxas de percepção do esforço (TPE) e sensação de sede foram menores quando a ingestão de líquidos foi via oral, comparada à infusão intravenosa. Esses resultados foram corroborados por relatos de redução temporária da sede devido ao gargarejo com água pura (Seckl e col., 1986). Apesar de especulativa, é possível que o acionamento do estímulo dentro da cavidade oral pela solução de carboidratos pode iniciar uma cadeia de mensagens neurais no sistema nervoso central, resultando na estimulação da recompensa e/ou centros de prazer no cérebro.

    Deve-se observar que exercícios contínuos intensos que duram menos que 45 minutos podem não se beneficiar da alimentação com carboidratos (Palmer e col., 1998). Em exercícios de intensidade tão alta, outros fatores podem anular o principal benefício do carboidrato. Há relativamente poucos estudos que tenham avaliado exercícios que duram menos que 1 hora, e por isso é preciso que mais pesquisas sejam realizadas. Entretanto, resultados de alguns laboratórios indicaram efeitos positivos de bebidas contendo carboidratos em exercícios intermitentes de alta intensidade usando um teste de shuttle run para esportes de equipe, como basquetebol e futebol (Davis e col., 1999; Nicholas e col., 1995; Welsh e col., 2002).

    Apesar de mecanismos centrais participarem da melhoria do desempenho durante exercícios que duram aproximadamente 1 hora, o mecanismo mais conhecido durante exercícios mais prolongados continua sendo a manutenção da glicemia e taxas relativamente altas de oxidação de carboidratos. Depois de o efeito do carboidrato no desempenho de endurance ter sido definido na década de 80, o próximo objetivo óbvio era determinar a dose ótima.

    A Dose Ótima

    Apenas poucos artigos foram publicados sobre os efeitos das diferentes doses de carboidratos no desempenho de exercícios. Mitchell e col. (1989) compararam a ingestão de 37 g, 74 g, ou 111 g de carboidratos por hora (soluções contendo 6%, 12% e 18%, respectivamente) ou água flavorizada. Comparada à água, apenas o teste com 74 g de carboidratos por hora melhorou o desempenho de maneira significativa numa pedalada isocinética de 12 minutos , após 105 minutos de exercício contínuo. Entretanto, todos os resultados de desempenho para os três testes com carboidratos apresentaram resultados estatisticamente semelhantes. Em estudo realizado anteriormente com desempenho isocinético semelhante, mas após 105 minutos de exercícios intermitentes, os mesmos autores mostraram melhora do desempenho comparando água com soluções contendo 5%, 6% e 7,5% de carboidratos (33, 40 e 50 g/h, respectivamente), sem diferença significativa entre as diferentes concentrações (Mitchell e col., 1988). Entretanto, neste estudo houve uma variação tanto da quantidade quanto do tipo de carboidratos ingeridos.

    Um estudo realizado por Fielding e col. (1985) costuma ser usado para referir que o mínimo de 22 g de carboidratos por hora são necessários para se conseguir o benefício no desempenho. Nesse estudo, os indivíduos realizaram um sprint de ciclismo após praticar 4 h de exercícios. Melhoras no desempenho foram observadas quando 22 g de carboidratos foram ingeridas a cada hora, enquanto nenhum efeito foi observado quando metade dessa dose foi consumida (11 g/h). Mas em estudo de Maughan e col. (1996), a ingestão de 16 g de glicose por hora melhorou a capacidade de endurance em 14%, comparada à água. (Entretanto, nenhum placebo foi dado neste estudo). Para ampliar esta incerteza, Flynn e col. (1987) não encontraram nenhuma diferença no desempenho com a ingestão de placebo, soluções com 5% ou 10% de carboidratos que ofereceram 0,15 e 30 g de carboidratos por hora, respectivamente, durante 2 horas de ciclismo.

    A maioria dos estudos ofereceu 40-75 g de carboidratos por hora e os resultados indicaram benefícios no desempenho. A ingestão de um único tipo de carboidratos, como glicose ou maltodextrinas, em taxas maiores que 60-70 g/h não parece ser mais eficaz na melhora do desempenho que a ingestão de carboidratos a 60-70 g/h, talvez, como discutido posteriormente, por causa das limitações na taxa de absorção de um único tipo de carboidrato pelo intestino. Também é possível que as atuais formas de se medir o desempenho não sejam sensíveis o suficiente para apreender pequenas diferenças no desempenho que possam existir quando se compara diferentes soluções de carboidratos.

    Pode-se concluir que os benefícios ao desempenho podem, algumas vezes, ser observados com a ingestão de quantidades relativamente pequenas de carboidratos, por exemplo, 16 g/h, mas isso é mais confiável com quantidades maiores. Se a ingestão de carboidratos tiver como objetivo melhorar o desempenho na endurance, parece que o efeito benéfico depende principalmente da oxidação daquele carboidrato.

    Oxidação de carboidratos Ingeridos. Alguns fatores podem influenciar a oxidação de carboidratos exógenos presentes em alimentos líquidos e sólidos, incluindo os horários das refeições, tipo e quantidade de carboidrato ingerido e a intensidade do exercício. Esses fatores interferem na taxa de oxidação de carboidratos de maneira independente.

    Um único tipo de carboidrato. Alguns tipos de carboidratos provenientes de uma única fonte são oxidados mais rapidamente que outros (Jeukendrup e col., 2000b). Eles podem ser arbitrariamente divididos em duas categorias: carboidratos que conseguem ser oxidados a taxas de até aproximadamente 30 g/h e até 60 g/h (Tabela 1).

    TABELA 1. Oxidação de diferentes carboidratos

    Carboidratos Rapidamente Oxidados (~ 60g/h)

    • Glicose (açúcar formado pela quebra do amido)
    • Sacarose (açúcar de mesa – glicose mais frutose)
    • Maltose (duas moléculas de glicose)
    • Maltodextrinas (proveniente da quebra do amido)
    • Amilopectina (proveniente da quebra do amido)

    Carboidratos Oxidados Lentamente (~ 30g/h)

    • Frutose (açúcar encontrado no mel, frutas, etc.)
    • Galactose (açúcar encontrado na beterraba)
    • Isomaltulose (açúcar encontrado no mel e cana de açúcar)
    • Trealose (açúcar encontrado em microorganismos)
    • Amilose (obtido a partir da quebra do amido)

    Quantia de carboidrato. A melhor quantia possível de carboidratos ingeridos deveria ser a quantidade que fornece a taxa máxima de oxidação exógena de carboidratos sem causar desconforto gastrintestinal. Rehrer e col. (1992b) pesquisaram a oxidação de diferentes quantidades de carboidratos ingeridos durante 80 minutos de ciclismo a 70% de VO2max. Os participantes do estudo receberam ou uma solução contendo 4,5% (total de 58 g de glicose durante 80 minutos de exercícios) ou 17% de glicose (220 g durante 80 minutos de exercícios). A oxidação total de carboidratos exógenos foi apenas um pouco maior com a dose mais alta de carboidratos (42 g x 32 g em 80 minutos). Apesar de a quantidade ingerida de carboidratos ter aumentado quase quatro vezes, a taxa de oxidação foi afetada muito pouco. Jeukendrup e col. (1999) pesquisaram ingestões ainda maiores (até 180g/h) e observaram que o pico da taxa de oxidação ocorreu com 56 g/h ao final de 120 minutos de exercícios de ciclismo. Esses resultados sugerem algum tipo de limitação na taxa máxima de oxidação de carboidratos exógenos.

    De acordo com a literatura científica nessa área, deve-se concluir que a taxa máxima de oxidação de uma única fonte de carboidratos ingeridos é de aproximadamente 60-70 g/h (Figura 1). Apesar de a grande maioria dos estudos ter sido realizado com homens, as mesmas conclusões parecem ser verdadeiras para mulheres que treinam endurance, ou seja, as taxas mais elevadas de oxidação de glicose exógena e a maior economia de carboidrato endógeno foram observadas quando os carboidratos foram ingeridos em taxas moderadas (60g/h) durante o exercício (Wallis e col., 2007). Este conhecimento implica que atletas que consomem um único tipo de carboidratos devem ingerir aproximadamente 60-70 g/h para melhor oferta possível de carboidratos. A ingestão de quantias maiores não aumentará as taxas de oxidação de carboidratos, além de estar aparentemente associada ao desconforto gastrintestinal.

    Eixo y - Oxidação de carboidrato Exógeno (g/h)

    Eixo x - Taxa de Ingestão de carboidrato (g/h)

    FIGURA 1. Oxidação de carboidrato ingerido. Esta figura é uma modificação de Jeukendrup (2004) e foi compilada a partir de estudos que pesquisaram a oxidação de carboidratos exógenos (ingeridos) durante o exercício. A taxa de oxidação é plotada como função da taxa de ingestão. Em verde apresentamos os valores de estudos realizados com um único tipo de carboidratos e em preto, as taxas de oxidação de diferentes combinações de diversos carboidratos. A linha verde é uma estimativa da média de todos os estudos com um único carboidrato e a linha preta, de diversos carboidratos que podem ser transportados. Conforme a quantia ingerida aumenta, aumenta também a taxa de oxidação, mas apenas até um certo ponto. A ingestão de quantias acima de 60-70 g/h de uma única fonte de carboidratos não aumenta mais a taxa de oxidação daquele carboidrato e é provável que haja um acúmulo do excesso no intestino. Entretanto, se diferentes carboidratos forem ingeridos em grandes quantidades, maior será a taxa máxima de oxidação de carboidratos exógenos, talvez porque diferentes carboidratos estimulem diferentes mecanismos de transporte para transferir carboidratos do intestino para a corrente sanguínea e portanto aumentar a oferta de carboidratos para os músculos.

    Diferentes carboidratos que podem ser transportados. Como revisado por Jeukendrup (2004), é provável que a oxidação de um único carboidrato exógeno seja limitada a aproximadamente 60 g/h porque há uma limitação na taxa de absorção intestinal daquele carboidrato. Sugere-se que na ingestão de altas taxas de uma única fonte de carboidratos (ex.: glicose ou frutose ou maltodextrinas), as proteínas específicas dos transportadores que ajudam na absorção daquele carboidrato no intestino ficam saturadas. Com os transportadores saturados, o aumento da ingestão daquele carboidrato não promoverá aumento da absorção intestinal e nem das taxas de oxidação.

    Em 1995, Shi e col. sugeriram que a ingestão de carboidratos que usam diferentes transportadores poderiam aumentar a absorção total de carboidratos. Assim sendo, começamos uma série de estudos usando diferentes combinações de carboidratos para determinar seus efeitos na oxidação exógena desse nutriente. No primeiro estudo, os participantes ingeriram uma bebida contendo glicose e frutose (Jentjens e col., 2004a). A glicose foi ingerida em uma taxa de 72 g/h e 108 g/h (mesmo teor de ingestão de glicose ou ingestão calórica). Observamos que a ingestão de glicose em uma taxa de 72 g/h resultou em taxas de oxidação de aproximadamente 48 g/h. A ingestão de glicose em taxa de 108 g/h não aumentou a taxa de oxidação. Entretanto, após a ingestão de glicose com frutose, a taxa de oxidação total de carboidratos exógenos aumentou para 76 g/h, um aumento de 45% na oxidação, comparado a quantidades semelhantes de glicose. Nos anos seguintes, estudamos diferentes combinações e quantidades de carboidratos na tentativa de determinar a taxa máxima de oxidação de misturas de carboidratos exógenos (Jentjens e col., 2004abc, 2005ab, 2006; Wallis e col., 2007). As taxas mais altas de oxidação foram aquelas de combinações de glicose mais frutose, com maltodextrinas mais frutose e com glicose mais sacarose e frutose. As maiores taxas foram observadas com a mistura de glicose e frutose ingeridas na taxa de 144 g/h. Com este esquema de alimentação, o pico da oxidação de carboidratos exógenos foi de 105 g/h, o que é 75% a mais que os valores antes considerados o máximo absoluto.

    O aumento da oxidação após a ingestão de diferentes tipos de carboidratos é teoricamente benéfico, apesar de haver necessidades de mais estudos nessa área. Um estudo no qual os participantes praticaram ciclismo por 5 h a 50% da taxa máxima de trabalho (~58% VO2max) com água, glicose ou glicose mais frutose, também tivemos algumas indicações de que a ingestão de diferentes carboidratos poderia acentuar as melhoras no desempenho (Jeukendrup e col., 2006). Nesse estudo, o carboidrato foi ingerido a uma taxa de 90 g/h. A primeira indicação de melhor desempenho foi a avaliação dos participantes sobre taxa de a percepção do esforço (TPE), que apresentou a tendência de ser menor com a mistura de glicose e frutose comparada apenas à glicose; o tratamento com água como placebo resultou nos valores mais altos de TEP. Na verdade, nem todos os participantes conseguiram completar as 5 horas de exercícios quando ingeriram água como placebo. Além disso, o ritmo definido pelo próprio participante era significativamente mais baixo com água, o que costuma ser reconhecido como indicação do desenvolvimento da fadiga. Com a glicose, o ritmo do ciclismo foi um pouco melhor quando comparado com a água, mas a associação de glicose mais frutose mostrou o ritmo mais alto, o que permaneceu praticamente inalterado desde o início do exercício. Assim confirmamos os efeitos benéficos da solução de glicose mais frutose comparada à ingestão isolada de glicose no desempenho de exercícios prolongados (K. Currell e col., dados ainda não publicados).

    Inserimos o termo eficiência da oxidação para descrever a porcentagem de carboidratos ingeridos que é oxidada (Jeukendrup e col., 2000b). Alta eficiência de oxidação significa que quantidades menores de carboidratos permanecem no trato gastrintestinal, reduzindo o risco de causar desconforto gastrintestinal que costuma ser relatado durante exercícios prolongados (Brouns & Beckers, 1993; Rehrer e col., 1992a). Um fato importante em nossos estudos, a eficiência da oxidação das bebidas contendo carboidratos que usam diferentes transportadores para absorção intestinal foi mais alta que de bebidas com uma única fonte de carboidratos. Portanto, comparada a uma única fonte de carboidratos, a ingestão de diferentes tipos de carboidratos resulta em menos carboidratos no intestino, o que pode diminuir as alterações osmóticas e a má-absorção. Isso provavelmente significa que as bebidas com múltiplos carboidratos transportáveis têm menor propensão a causar desconforto gastrointestinal. É interessante porque isso também foi observado em outros estudos que tentaram avaliar o desconforto gastrointestinal durante o exercício (Jentjens e col., 2004abc, 2005b, 2006; Wallis e col., 2007). Os participantes tendem a sentir menos distensão abdominal com bebidas contendo glicose mais frutose quando comparadas às bebidas de soluções de glicose. Ainda não se publicou nenhum estudo de escopo maior sobre os efeitos de bebidas com diferentes tipos de carboidratos e o desconforto gastrintestinal.

    Intensidade do exercício. Com o aumento da intensidade do exercício, a massa de músculos ativos torna-se progressivamente mais dependente dos carboidratos como fonte de energia. Entretanto, a oxidação de carboidratos exógenos parece permanecer constante em intensidades de 50-60% de VO2max ou acima disso (Pirnay e col., 1982).

    Desconforto Gastrointestinal Durante o Exercício

    O desconforto gastrointestinal é muito comum durante o exercício, principalmente em esportes de endurance e ultra-endurance. Peters e col. (1999) enviaram um questionário a 606 atletas (corredores, ciclistas e tri-atletas) para avaliar a prevalência de problemas gastrointestinais assim como para obter informações sobre seus treinos e hábitos alimentares. Os sintomas que provavelmente envolvem o trato gastrointestinal alto (náuseas, vômitos, eructação, azia, dor torácica) e baixo (distensão abdominal, cãibras abdominais, dores nas laterais, vontade de evacuar e diarréia) foram avaliados por todos os participantes. De toda a amostra, 45-79% relataram sintomas relacionados ao trato gastrintestinal baixo e 36-67%, associados ao alto. Os sintomas parecem ser mais graves durante exercícios de corrida do que no ciclismo, são mais prevalentes em mulheres do que em homens e parecem ser mais freqüentes em exercícios prolongados. Por exemplo, em evento de triathlon de extrema longa distância, 93% dos participantes relataram algum tipo de desconforto gastrintestinal e 45% desses problemas foram classificados como grave (Jeukendrup e col., 2000c).

    A ocorrência de transtornos gastrointestinais tem sido associada à ingestão de carboidratos durante o exercício (Brouns & Beckers, 1993). A ingestão relativamente alta de carboidratos durante o exercício pode aumentar a incidência de sintomas gastrointestinais, como diarréia e cãibras abdominais, seja pela atração osmótica de líquidos da corrente sanguínea para o intestino (Brouns & Beckers, 1993) ou pela má-absorção. O fato de o fluxo sanguíneo mesentérico para o intestino ser menor durante exercícios de alta intensidade e desse fato ser acentuado com a desidratação (Brouns & Beckers, 1993) poderia explicar o fato de os sintomas serem mais prevalentes se o exercício é mais prolongado e executado no calor. Apesar da presença do desconforto gastrointestinal ter sido relacionado à ingestão de carboidratos durante o exercício, isso pode estar mais relacionado à hiperosmolalidade das soluções que ao real teor de carboidratos (Rehrer e col., 1992). De fato, em um estudo realizado em laboratório, bebidas hipotônicas contendo 7% de carboidratos não aumentaram o desconforto de maneira significativa durante 2,5 horas de corrida e ciclismo comparado à água (Peters e col., 2000). Apesar de não haver evidência direta, é provável que os carboidratos ingeridos em taxas muito altas (>60 g/h), o que quase certamente resulta em hiperosmolalidade do conteúdo do estômago, serão responsáveis pelo aumento da incidência de problemas gastrointestinais. Entretanto, também é provável que o desconforto gastrointestinal associado a uma única fonte ou fontes de carboidratos é definido principalmente pela eficiência da oxidação do carboidratos. Portanto, é tentador especular que diferentes carboidratos transportáveis ingeridos em altas taxas serão associados com menor desconforto gastrointestinal na oferta de carboidratos em altas taxas. A tolerância de atletas para doses mais altas de diversas bebidas contendo carboidratos e a probabilidade de o atleta desenvolver desconforto gastrointestinal parece ser uma resposta bastante individual. Portanto, as estratégias para a ingestão de carboidratos devem ser sempre traçadas individualmente, principalmente por tentativa e erro.

    Carboidratos e Oferta de Líquidos

    Outro motivo para evitar a ingestão de soluções altamente concentradas de carboidratos é que essas soluções retardam o esvaziamento gástrico e a absorção de líquidos. Mas o comprometimento da oferta de líquidos é minimizado quando combinações de diferentes carboidratos transportáveis são ingeridas. Observamos que a oferta de líquidos com uma solução de glicose mais frutose é maior quando comparada a uma solução de glicose (Jentjens e col., 2006). As duas soluções desses carboidratos continham aproximadamente 15 g de carboidratos por 100 mL (ou seja, uma solução de carboidratos a 15%) e essas soluções altamente concentradas de carboidratos normalmente resultarão em grave comprometimento da oferta de líquidos. De maneira interessante, a taxa de oferta de líquidos para a corrente sanguínea com a bebida glicose mais frutose era mais semelhante à água pura que a glicose. Entretanto, em ambientes quentes e úmidos, principalmente em exercícios de intensidades relativamente baixas, a oferta de líquidos é mais importante que a de carboidratos e os atletas devem consumir soluções menos concentradas de carboidratos. As necessidades de carboidratos em atletas de endurance são relativamente constantes em diferentes condições ambientes, apesar de as taxas de oxidação de carboidratos aumentarem um pouco no calor. Esse aumento da oxidação de carboidratos é principalmente proveniente da glicogenólise muscular e a contribuição de carboidratos exógenos pode, na verdade, diminuir (Jentjens e col., 2002). A explicação mais lógica para essa redução é uma redistribuição da corrente sanguínea para a pele e músculos, com redução do fluxo sanguíneo para o intestino. Essa redistribuição do sangue provavelmente afetaria a absorção de carboidratos de maneira negativa. Entretanto, combinações de diferentes carboidratos podem, no mínimo, parcialmente superar esse problema e as altas taxas de oxidação de carboidratos exógenos podem ser conseguidas mesmo nestas condições de calor (Jentjens e col., 2002).

    A Ingestão de Carboidratos Compromete as Adaptações Metabólicas para os Treinos?

    Civitarese e col. (2005) sugeriram que a ingestão de carboidratos durante o exercício pode suprimir a expressão gênica das enzimas oxidativas envolvidas no metabolismo de gorduras e portanto poderia interferir com o processo de adaptações de treino que envolvem mais dependência no metabolismo de gorduras para obtenção de energia. Os autores mostraram que a transcrição de diversos genes relacionados ao metabolismo de gorduras é temporariamente induzida após o exercício quando nenhum alimento é oferecido durante o exercício e que a ingestão de glicose interferiu nessas adaptações. Além disso, Cluberton e col. (2005) demonstraram que a ingestão de glicose atenuou o aumento induzido pelo exercício de outras enzimas envolvidas no metabolismo de energia e de certos tipos de RNA mensageiro.

    Entretanto, pode haver uma falha na extrapolação desses resultados para implicações práticas para o atleta; a ingestão de carboidratos pode permitir que o atleta treine mais forte, o que poderia então resultar na melhora da transcrição de genes metabólicos. Portanto, pode ser um pouco precoce oferecer conselho prático baseado no pequeno número de estudos realizados em laboratórios que já foram publicados (Hawley e col., 2006).

    RESUMO

    Apesar de a ingestão de carboidratos poder melhorar o desempenho na prática de exercícios, o consumo de grandes quantidades desse nutriente não é necessariamente uma boa estratégia. Os carboidratos provenientes de bebidas ou alimentos pouparão o glicogênio hepático, aumentarão a oxidação de carboidratos pelos músculos e terão um impacto positivo em algumas respostas do sistema nervoso central, mas a ingestão de quantias muito elevadas de carboidratos pode ter um efeito negativo. Soluções altamente concentradas de carboidratos e bebidas com alta osmolalidade foram associadas ao desenvolvimento de desconforto gastrointestinal. Portanto, parece que há um equilíbrio muito tênue entre a ingestão da melhor quantidade possível de carboidratos que consegue ser oxidada em energia sem causar o desconforto gastrintestinal, o que pode negativamente afetar o desempenho.

    Artigo do site: http://www.gssi.com.br

  • Artigos 16.07.2009 1 Comment

    PONTOS PRINCIPAIS

    • As tradicionais rotinas de alongamento realizadas durante o aquecimento, antes do exercício podem aumentar a flexibilidade por um curto período de tempo, mas há poucas evidências científicas de que essas rotinas consigam melhorar o desempenho, diminuir a dor muscular de início tardio ou evitar lesões.
    • O alongamento regular, por exemplo, 3-5 dias/ semana, isolado do ambiente de exercício pode ser efetivo para aumentar a flexibilidade e desempenho de alguns tipos de exercícios, e isso pode diminuir o risco de lesões, mas é preciso realizar mais estudos para se validar este conceito.
    • O alongamento passivo por 15-30s é mais eficiente para aumentar a flexibilidade que o alongamento por períodos mais curtos e é tão eficiente quanto o alongamento por períodos mais longos.
    • Aumentar a flexibilidade é importante para atividades como balé, ginástica e natação, mas isso pode diminuir a economia de corrida e pode ser inadequado para o os jogadores de futebol americano e para algumas outras atividades esportivas nas quais a estabilidade das articulações é fundamental.
    • O alongamento um pouco antes do exercício pode causar déficit de força temporário.
    • O risco de lesão aos músculos, tendões e ligamentos parece ser menor em atletas que apresentam melhor preparo aeróbico.
    • Há algumas evidências de que os tradicionais procedimentos de aquecimento que não incluem o alongamento podem melhorar o desempenho de alguns tipos de exercícios e diminuir o risco de lesões esportivas.

    INTRODUÇÃO

    Todos os dias, em diferentes locais nos quais se pratica esportes no mundo todo, atletas preparam-se para competir com um ritual familiar de alongar os principais grupos musculares requisitados para aquele esporte. Essas rotinas de pré-exercícios costumam incorporar uma variedade de técnicas de alongamento e exercícios de aquecimento. Textos de medicina esportiva, artigos de periódicos para profissionais de saúde e treinadores, e publicações leigas promovem o alongamento como fundamental para diminuir o risco às lesões.

    Com tamanha aceitação do alongamento antes do exercício, poderia presumir-se que fortes evidências científicas corroboram sua eficácia para a prevenção da lesão ou melhora do desempenho. Entretanto, muitas publicações científicas questionam a utilização convencional do alongamento pré-exercício. Este artigo resume resultados de recentes pesquisas sobre alongamento, flexibilidade e aquecimento.

    REVISÃO DA PESQUISA

    Técnica de Alongamento

    Uma grande variedade de tipos de alongamento tem sido propostos. O alongamento ativo ou dinâmico propõe que os atletas individualmente façam a contração de músculos para alongar outros. Sub-tipos de alongamento ativo incluem estático, isométrico e balístico. O alongamento passivo e a facilitação neuromuscular proprioceptiva (FNP) geralmente envolvem um parceiro que ajude na atividade. Independentemente do tipo de alongamento usado, parece que ele é mais eficaz para aumentar a amplitude de movimento quando realizado após o aquecimento muscular realizado por exercícios preliminares ou aquecimento passivo, como por exemplo, com bolsas quentes ou ultrasom (Knight e col., 2001).

    Alongamento estático. O alongamento estático é feito de maneira lenta e sustentada, ou seja, os atletas devem mantê-lo por 15-60s. Um exemplo é o alongamento dos músculos isquiotibiais e das costas fazendo um lento movimento para frente, para tocar e segurar os tornozelos e os pés na posição sentado fazendo uma flexão para frente. O alongamento estático é usado pela maioria dos atletas e é incluído em muitos treinos antes das competições.

    Alongamento isométrico. Atletas que fazem o alongamento isométrico (uma forma de alongamento estático) tentam contrair o músculo enquanto fazem esforço contra uma resistência fixa. No exemplo do alongamento estático apresentado no parágrafo anterior, se o atleta fosse contrair os músculos isquiobitiais enquanto mantivesse o alongamento, algumas das fibras isquiotibiais em contração estariam mais alongadas enquanto outras tentariam ficar mais curtas. A idéia é que a contração isométrica por alguns segundos permitiria aumentar o alongamento estático e assim alongar ainda mais o músculo.

    Alongamento balístico. O alongamento balístico envolve o alongamento rápido de músculos, geralmente com movimentos repetitivos ou de balanço para tocar os dedos do pé enquanto está em pé com as pernas em linha reta. Poucos atletas usam o alongamento balístico, mas a técnica parece favorecer alguns esportes. Relatos de lesão de tecido mole durante o alongamento balístico fez com que muitos instrutores e terapeutas de condicionamento físico condenassem seu uso.

    Alongamento passivo. Durante o alongamento passivo, uma das técnicas de alongamento assistido, o atleta não contrai ativamente os músculos para alongar os antagonistas. Em vez disso, a gravidade, uma máquina ou mais tipicamente, um parceiro aplica pressão continua para causar um movimento que aos poucos aumenta a amplitude de movimento. O alongamento assistido dos músculos isquiotibiais, enquanto um atleta está sentado com as pernas esticadas e um parceiro lentamente empurra as costas do atleta, é uma prática comum e um bom exemplo dessa técnica.

    Facilitação neuromuscular proprioceptiva. A facilitação neuromuscular proprioceptiva (FNP), outra técnica de alongamento assistido, utiliza um parceiro que resiste à contração dos grupos de músculos alongados por um breve intervalo, depois os músculos são relaxados enquanto o parceiro passivamente alonga o grupo de músculos além do normal da amplitude de movimento. Usando novamente o mesmo exemplo do alongamento dos músculos isquiotibiais, com o atleta deitado de costas, um assistente levanta as pernas estendidas do atleta para cima e em direção ao tronco para alongar os isquiotibiais por aproximadamente 20 – 30s. Em seguida, o atleta tenta contrair os isquiotibiais alongados (ou seja, tenta abaixar as pernas) por 5-6s enquanto o assistente (ou talvez uma parede) faz resistência à contração, para inibir o movimento. Os grupos de músculos contraídos são depois relaxados e lentamente o assistente alonga os isquiotibiais, provavelmente além do alongamento original. Esse processo é repetido por 2-4 vezes.

    REVISÃO DE ESTUDOS

    Alongamento e Melhora da Flexibilidade

    O objetivo de todas as técnicas de alongamento é aumentar a amplitude de movimento de uma articulação (ou articulações) aumentando a flexibilidade dos grupos musculares próximos da articulação (articulações). (Flexibilidade é o quanto um músculo consegue ser alongado com uma determinada força. Na prática, uma mudança na flexibilidade é medida por mudanças na amplitude de movimento, portanto, os dois termos, flexibilidade e amplitude de movimento, costumam ser considerados sinônimos). Por exemplo, aumentando a flexibilidade dos músculos das costas e dos isquiotibiais na parte posterior das pernas se consegue aumentar a amplitude de movimento das articulações da coluna para permitir maior flexão do tronco, ou seja, a capacidade de curvar o tronco para frente. Todos os tipos de alongamentos conseguem melhorar a amplitude de movimento ao redor de cada uma das principais articulações pelo menos temporariamente, mas não há nenhuma clara evidência que uma dessas técnicas ofereça mais flexibilidade.

    Bandy e col. (1998) mostraram que o alongamento passivo dos isquiotibiais aumentou a flexibilidade do tronco e promoveu um alongamento ativo, mas isso não ocorreu na articulação do quadril. Na revisão feita por Thacker e col. (2004), alguns estudos apontaram maior flexibilidade com a FNP comparado a outros tipos de alongamento, mas os resultados não foram consistentes e as técnicas não eram padronizadas.

    Roberts e Wilson (1999) apontam que a duração é importante: alongamentos de 15–30s promoveram alongamento muscular tanto quanto alongamentos mais prolongados e foram mais eficazes que os esquemas com duração menor que 15s. Entretanto, também há estudos que utilizaram protocolos de alongamento balístico, com resultados favoráveis, que incorporam movimentos curtos, mas repetitivos e rápidos. Por exemplo, Laroche e Connolly (2006) compararam períodos de 30s de alongamentos estáticos dos isquiotibiais com alongamentos balísticos dos mesmos músculos, repetidos a cada segundo por um total de 30s. Os dois protocolos promoveram melhoria semelhante na amplitude de movimento (+9,5% vs. +9,3%)

    A melhora da flexibilidade após uma única sessão de alongamento parece persistir por até 90 min, enquanto os esquemas de alongamento realizados regularmente, por exemplo, 3–5 dias por semana, pode melhorar a flexibilidade por algumas semanas após sua conclusão (Zebas & Rivera, 1985).

    Efeitos do Alongamento na Força, Salto e Economia de Corrida

    O alongamento aumenta a flexibilidade, mas isso melhora a força? Provavelmente não. Dois estudos relataram que a força era reduzida por até 1 h após uma sessão do alongamento (Fowles e col., 2000; Kokkonen e col., 1998). O resultado de um estudo do torque máximo durante a extensão concêntrica e isocinética da perna mostrou que após um exercício ativo e três passivos de alongamento, a força diminuiu tanto em velocidades altas e baixas (Cramer e col., 2004). Esses resultados são consistentes com os observados por Cornwell e col. (2001), que apontaram redução da capacidade de salto vertical após o alongamento passivo dos músculos. ”

    Young e Behm (2003) compararam cinco protocolos de “aquecimento” usados antes dos testes de salto. Os protocolos eram 1) controle; 2) corrida submáxima de 4 minutos; 3) alongamento estático; 4) corrida e alongamento; e 5) corrida e alongamento, além de saltos. O desempenho dos 16 participantes foi pior após o alongamento estático. O grupo de corrida e alongamento não teve nenhum resultado melhor que o grupo controle, mas tanto o grupo só de corrida quanto o de corrida, alogamento e salto apresentaram valores mais altos na produção de força explosiva. O grupo apenas de corrida foi claramente superior ao de corrida e alongamento em quatro das seis variáveis avaliadas (altura no drop jump, altura no salto concêntrico, força concêntrica máxima e taxa do desenvolvimento de força). Quando os cinco estudos foram analisados juntos, tanto a corrida quanto os saltos tiveram um efeito positivo na força explosiva e desempenho no salto, mas o alongamento estático teve impacto negativo no desempenho.

    Parece que o aumento da flexibilidade é indesejável em alguns esportes. Gleim e col. (1990) relataram uma correlação negativa entre a flexibilidade e economia no caminhar e no jogging em um grupo de 38 mulheres e 62 homens com idade entre 20-62 anos, que foram divididos em três grupos referentes à flexibilidade — mais flexível, flexibilidade normal e menos flexível — em 11 medidas de amplitude de movimento. Para o grupo menos flexível, a economia na caminhada e no jogging foi melhor que no grupo nomal e significativamente melhor que no grupo dos mais flexíveis. Em estudo semelhante, Craib e col. (1996) avaliaram corredores do sexo masculino pertencentes ao grupo de sub-elite e aqueles menos flexíveis também costumavam apresentar melhor economia de corrida. Da mesma maneira, quando Jones (2002) estudou um grupo de corredores de elite internacional em um teste de sentar e alcançar (TSA), ele relacionou a flexibilidade à economia de corrida, sendo que a menor flexibilidade foi associada com melhor economia. Enquanto esses estudos se concentraram no correr e caminhar, para alguns movimentos de luta, futebol americano, boxe e outros esportes nos quais a estabilidade da articulação é importante, também é razoável presumir que seria contra-indicado o aumento da flexibilidade nas articulações críticas. Se o alongamento realmente diminui a força máxima disponível para o salto e diminui a economia de corrida, não seria lógico realizar protocolos de alongamento antes de esportes de salto ou de corrida.

    Entretanto, os estudos que apontavam a associação negativa entre o alongamento e força e entre flexibilidade e economia do movimento apresentaram algumas limitações. Além disso, outros estudos não conseguiram mostrar a associação do alongamento com a queda na força de maneira consistente (Laroche & Connolly) ou da relação da falta de flexibilidade com melhor economia de corrida (Nelson e col., 2001).  Portanto, é prematuro recomendar que atletas de salto e corrida nunca façam alongamento antes do exercício.

    Shrier (2004) sugeriu precaução antes de apresentar amplas conclusões sobre os efeitos do alongamento no desempenho. Em sua revisão da literatura, ele observou diferenças nos efeitos de dois diferentes tipos de alongamento — alongamento agudo, um pouco antes de um ciclo de exercícios e o alongamento regular, realizado por uma série de dias ou semanas fora do contexto de exercícios. Ele não detectou nenhum benefício do alongamento agudo na produção de força isométrica, torque isocinético ou altura do salto e estudos mostram resultados mistos sobre os efeitos do alongamento agudo na velocidade da corrida. Entretanto, parece que o alongamento regular melhora a força, altura do salto e velocidade da corrida de maneira confiável. Essa noção de que os efeitos do alongamento imediatamente após o exercício são um pouco diferentes dos efeitos daquele realizado regularmente fora do contexto da prática de exercícios, é surpreendente. Intuitivamente, isso sugere ou que outros tipos, durações ou intensidades do alongamento realizados em dois ambientes ou que os efeitos benéficos do alongamento são anulados pelo exercício subsequente. Mais estudos são necessários para confirmar quaisquer diferenças nos efeitos do alongamento antes do exercício e do alongamento em contexto não relacionado aos exercícios.

    Alongamento e Dor Muscular de Inicio Tardio

    A opinião compartilhada por atletas, técnicos e profissionais de saúde é que o alongamento antes e/ou após o exercício irá prevenir ou minizar as dores musculares que costumam surgir 24–48 h após o exercício. Em 2002, Herbert e Gabriel publicaram uma meta-análise de estudos que mediram o efeito do alongamento, imediatamente antes ou depois do exercício e as dores musculares. Identificaram cinco estudos de qualidade suficiente para serem avaliados. Esses estudos analisaram o retardo da instalação da dor muscular 24, 48 e 72 h após o exercício. De modo geral, o alongamento não teve nenhum efeito significativo na dor muscular.

    Confirmando esses resultados preliminares, LaRoche e Connolly (2006) estudaram indivíduos que fizeram o alongamento passivo ou balístico dos músculos isquiotibiais por quatro semanas e não detectaram nenhum efeito na instalação tardia da dor muscular após exercícios excêntricos. De maneira semelhante, Dawson e col. (2005) estudaram jogadores australianos de futebol americano e não observaram nenhum efeito do alongamento imediatamente após um jogo na dor muscular, flexibilidade, potência de sprint no ciclismo ou na capacidade de saltar verticalmente avaliada 48 h depois.

    Em vez de estudarem o alongamento antes de exercícios que induzem a dor muscular, Reisman e col. (2005) testaram os efeitos do alongamento passivo em músculos flexores do cotovelo que já estavam doloridos na dor subsequente. Observaram que a sensação de dor após cinco extensões passivas dos flexores do cotovelo diminuiram. Os autores levantam a hipótese de que o alongamento permitiria que atletas com dor muscular treinassem além do que conseguiriam sem o alongamento.

    Alongamento e Prevenção de Lesões

    O amplo uso do alongamento e as diversas recomendações para usá-lo para evitar lesões sugere que deve haver muitos estudos de alta qualidade sobre o alongamento e prevenção de lesões na literatura. Por outro lado, podemos considerar algumas das principais dificuldades para realizar um estudo definitivo sobre este assunto: 1) distribuir aleatoriamente um grande número de atletas com características físicas semelhantes em vários esportes para que sigam protocolos de alongamento ou de não-alongamento, 2) a duração do experimento para incluir um número suficiente de meses para acumular um número adequado de relatos de lesão, 3) supervisão rigorosa e controle de protocolos diários de alongamento e programas de exercícios, e 4) controle rigoroso e relato confiável das lesões. Portanto, não deve ser surpreendente que Herbert e Gabriel (2002) encontraram apenas dois estudos que se qualificavam a um critério padrão sobre a qualidade metodológica. Esses dois estudos, ambos de Pope e col. (1998, 2000), foram feitos com recrutas do sexo masculino das forças armadas. Os 1284 indivíduos que participaram dos grupos de alongamento tiveram 181 lesões contra 200 lesões entre os 1346 soldados nos grupos controle, sem diferença estatisticamente significativa. É interessante que Pope e col. (2000) observaram que apesar de parecer que o alongamento não teve nenhum efeito aparente no risco de lesão, provou-se que o nível de preparo aeróbico era um fator poderoso e consistente do risco da lesão, tanto que o menos preparado aerobicamente apresentava um risco 14 vezes maior de ter uma lesão que aqueles com melhor preparo.

    Thacker e col. (2004) fizeram uma ampla pesquisa na literatura sobre o alongamento para prevenção de lesões, incluindo artigos publicados até 2002. Usando uma ferramenta diferente de avaliação de qualidade que o empregado por Herbert e Gabriel, eles avaliaram 361 artigos e encontraram apenas seis com qualidade suficiente para serem analisados. Os participantes de quatro desses estudos eram recrutas militares em treinamento básico, enquanto que os outros dois eram de jogadores de futebol americano. Dos seis estudos, três estudos randomizados não conseguiram demonstrar a redução de lesões como efeito do programa supervisionado de alongamento. Os outros três estudos coorte sugeriram fraca evidência do benefício do alongamento, mas a metodologia desses estudos foi considerada pior. Thacker e col. (2004) concluíram que não havia evidências convincentes para continuar ou interromper o alongamento de rotina antes dos exercícios.

    As conclusões de Thacker foram baseadas nas revisões feitas por Gleim & McHugh, 1997; Hart, 2005; Park & Chou, 2006; Shrier, 1999, 2000, 2004a; Yeung & Yeung, 2001, e Witvrouw e col., 2004. Mas em uma carta ao editor, Shrier (2004b) alertava que os efeitos de uma sessão aguda de alongamento antes do exercício podem ter o efeito oposto do alongamento realizado regularmente fora do contexto da prática de exercícios. Ele citou alguns estudos com alongamento regular que sugerem um efeito positivo na prevenção da lesão. Também, tanto Gleim & McHugh quanto Witvrouw e col. sugeriram que as diferentes atividades esportivas podem se beneficiar dos diferentes níveis de flexibilidade da articulação e que essas diferentes demandas podem explicar a falta de consenso na literatura, na qual a maior parte dos artigos não mostra esses diferentes tipos de atividades.

    Aquecimento como Fator de Confusão em Estudos sobre o Alongamento

    As diferentes atividades de aquecimento não costumam ser fatores controlados nos estudos sobre o alongamento. Portanto, é possível que em alguns estudos, o efeito positivo do alongamento tenha sido na verdade o exercício aeróbico, drills ou exercícios específicos daquele esporte durante o aquecimento e não o alongamento, o responsável pelo benefício. Fradkin e col. (2006) revisaram os estudos randomizados controlados para avaliar as atuais evidências sobre o aquecimento na prevenção das lesões. Analisando cinco estudos de alta qualidade, encontraram seu benefício em três estudos com atletas adolescentes que fazem parte de equipes de futebol americano e de handebol, mas sem nenhum benefício em dois estudos sobre lesões nas extremidades inferiores em corredores recreacionais ou recrutas militares.

    De modo geral, observaram que o peso das evidências era favorável ao aquecimento para diminuir o risco da lesão, sem quaisquer efeitos prejudiciais. Os potenciais fatores de confusão deste estudo incluem a variabilidade dos esquemas específicos usados, os diferentes esportes incluídos e a heterogenicidade dos participantes. Faigenbaum e col. (2005) estudaram o aquecimento dinâmico versus alongamento estático em diferentes faixas etárias e variedade de atletas. Quando comparado ao alongamento estático, tanto o aquecimento dinâmico quanto o aquecimento dinâmico mais drop jumps melhoraram o desempenho de crianças para salto vertical jump e shuttle runs. O desempenho de salto à distância também melhorou no grupo que fez o aquecimento dinâmico que incluiu os drop jumps. De maneira semelhante, protocolos dinâmicos com ou sem alongamento promoveram um melhor desempenho da atividade anaeróbica em um grupo de atletas da escola secundária que realizam exercícios de força, principalmente do sexo masculino que seguiram protocolos de alongamento estático (Faigenbaum e col., 2006a). Os autores concluíram que o exercício dinâmico pré-evento ou exercícios dinâmicos mais alongamento estático, e não só o alongamento estático, deveria ser incorporado em esquemas de aquecimento.

    O grupo de Faigenbaum (2006b) também realizou um estudo com atletas da escola secundária do sexo feminino para testar os efeitos agudos de quatro protocolos de aquecimento no desempenho. Após 5 min de jogging, os participantes fizeram parte de um dos cinco grupos: A) cinco alongamentos estáticos, cada um realizado por duas vezes e por 30s, B) nove exercícios dinâmicos de intensidade moderada a alta, C) os mesmos nove exercícios dinâmicos realizados com roupa que pesava 2% da massa corporal e D) os mesmos nove exercícios dinâmicos realizados com roupa que pesa 6% da massa corporal. O desempenho no salto vertical foi significativamente maior após o tratamento B (41,3 ± 5,4 cm) e C (42,1 ± 5,2 cm) comparado a A (37,1 ± 5,1 cm), e o desempenho do salto à distância foi significativamente melhor após C (180,5 ± 20,3 cm) comparado a A (160,4 ± 20,8 cm).

    Não se observou nenhuma diferença significativa entre as situações de jogar uma bola medicinal estando sentado ou num sprint de 10 metros. Os autores concluíram que o aquecimento dinâmico realizado com um colete que pesava 2% do peso corporal pode ser o protocolo de aquecimento mais eficaz para melhorar o desempenho no salto de atletas do sexo feminino de escolas secundárias.

    RESUMO E DISCUSSÃO

    Está claro que as rotinas de alongamento realizadas antes do exercício podem aumentar a flexibilidade por até 90 min, mas há poucas evidências científicas para sugerir que tais rotinas consigam melhorar o desempenho nos exercícios, reduzir a dor muscular de início tardio ou evitar lesões. Ainda não há confirmação se o alongamento realizado regularmente fora do contexto de exercícios seja eficaz para melhorar o desempenho de alguns exercícios ou diminuir o risco da lesão.

    Apesar de aumentar a amplitude de movimentos das articulações, o alongamento um pouco antes do exercício pode causar deficits temporários de força. Dados epidemiológicos indicam que o risco da lesão aos músculos, tendões e ligamentos está mais ligado à condição aeróbica deficiente do atleta e não à flexibilidade insuficiente.

    Como as evidências científicas são fracas para corroborar o benefício do alongamento pré-exercício, por que é que textos de medicina esportiva, especialistas médicos, fisiologistas, treinadores, personal trainers e técnicos continuam a recomendar esta prática? Herbert e Gabriel (2002) estimaram que mesmo na melhor situação possível, o atleta médio precisaria alongar antes da atividade por 23 anos para evitar uma única lesão. Além disso, apesar de a ciência ser a maneira mais objetiva para descobrir a verdade, ela não é a única maneira. Muitos especialistas em saúde e esportes tiveram experiências clínicas e práticas positivas com o alongamento e há milhares de relatos de lesões que aconteceram em raras ocasiões quando atletas que nunca tinham tido lesões deixaram de realizar o alongamento antes do exercício. Há também críticas válidas sobre os dados científicos. Estudos sobre o alongamento avaliaram diferentes tipos, durações e frequências de alongamento em número limitado de atletas e apenas em alguns poucos esportes. Por exemplo, muitos dos dados negativos sobre o alongamento estavam relacionados aos atletas de corridas de longa distância, um esporte no qual a economia de corrida parece melhorar com a redução, e não com o aumento da flexibilidade. Se o alongamento talvez não seja útil para corredores de endurance, a mesma premissa seria aplicada aos atletas que correm com barreira, ginastas ou dançarinos, todos que tradicionalmente se beneficiam com a flexibilidade? Finalmente, como descrito anteriormente, é extremamente difícil, se não impossível, realizar um estudo sem falhas sobre o efeito do alongamento no risco da lesão.

    Como parece que o alongamento atinge o objetivo de aumentar a flexibilidade ao redor das articulações, talvez o insucesso aparente do alongamento para evitar lesões ocorra porque ele é não é feito no momento adequado antes do exercício ou o alongamento não é necessário para todos os atletas. Talvez os atletas devam ser avaliados individualmente para melhor entender como utilizar seu tempo de preparo antes do exercício. Atletas inflexíveis podem ser incentivados a incorporar um pouco do alongamento em uma rotina global de aquecimento, enquanto outros indivíduos que já tem uma excelente amplitude de movimento se concentrariam em integrar a força, salto ou outras atividades no aquecimento.

    Ingraham (2003) sugeriu que a maior parte dos técnicos, treinadores atléticos e especialistas da medicina esportiva parecem automaticamente presumir que quando um atleta estira um músculo, ele teria que aumentar a flexibilidade para evitar lesões no futuro. Ela especula que seria mais importante que esses atletas melhorem sua condição física. Certamente, a correlação da condição aeróbica deficiente com aumento do risco da lesão parece ser muito maior que aquelas observadas com a falta de flexibilidade (Herbert & Gabriel, 2002).

    Maiores estudos clínicos randomizados e controlados, incluindo ambos os sexos, vários esportes e tempo adequado de acompanhamento ajudariam a esclarecer o papel do alongamento. Estudos adicionais deveriam analisar o momento ideal para o alongamento, assim como a padronização da sua qualidade e duração. O alongamento excêntrico, o aquecimento e o condicionamento aeróbico, estavam presentes em estudos sobre os efeitos do alongamento no risco da lesão como fatores que tendem a diminuir esse risco. Apenas quando os estudos apresentarem controle adequado dessas variáveis será esclarecida a contribuição específica do alongamento na prevenção da lesão. Até que dados científicos mais fortes sejam apresentados, aqueles que atuam em medicina esportiva e técnicos deveriam oferecer conselhos cautelosos para os atletas. Uma abordagem prática seria enfatizar a condição física aeróbica e o aquecimento e permitir que o atleta, individualmente, tome a decisão de incluir ou não o alongamento nesse esquema.

    Artigo do site: http://www.gssi.com.br