Muito papel e muita tinta já foram gastos por especialistas em recursos humanos na defesa da crença de que gente feliz produz mais — o que fez com que grandes empresas investissem em todo tipo de política para tornar o ambiente de trabalho mais agradável. Um dos exemplos mais conhecidos é o Google, com suas salas de descanso e massagem, jogos, comida liberada e horários flexíveis, que tornaram a empresa uma espécie de empregador dos sonhos de qualquer profissional. Agora, muitos pequenos e médios empresários estão descobrindo que algumas ações que fazem sucesso entre os funcionários podem custar pouco — às vezes, bem pouco ou nada. A reportagem de EXAME PME conversou com empreendedores que, com imaginação e um pouco de boa vontade, colocaram em prática medidas simples que deixaram seu pessoal mais contente. Veja como elas ajudam cada funcionário a…
…virar um atleta
No laboratório paulistano Buenos Ayres, de manipulação de cosméticos e medicamentos, o esporte começa depois do expediente. Sérgio Marques, de 50 anos, um dos donos, incentivou seus funcionários a formar um grupo de ciclismo. Todas as noites de segunda e quarta-feira, cerca de 30 deles percorrem de bicicleta as ruas da capital paulista. O passeio dura 1 hora. “Muitos queriam participar, mas não tinham equipamento”, diz Marques. “Compramos uns dez modelos bem simples, que custam menos de 200 reais, para emprestar a eles.” Com o tempo, muitos dos que começaram a pedalar adquiriram a própria bicicleta — que pode ficar estacionada no bicicletário da empresa, no bairro de Higienópolis, no centro da cidade.
Na Trexcon, fabricante de equipamentos de automação industrial de São Paulo, desde o começo deste ano uma fisioterapeuta vai três vezes por semana à empresa para ensinar ginástica laboral a 60 funcionários. “A atividade é muito importante para quem faz movimentos repetitivos, que é caso do nosso pessoal”, diz Eloy de Sousa, de 42 anos, sócio da Trexcon. Pelo serviço, a fisioterapeuta cobra 360 reais por mês. “O programa começou há pouco tempo e já está dando ótimos resultados”, afirma Sousa. “Agora, raramente alguém precisa faltar por dores causadas pelo trabalho, o que era muito frequente no passado.”
…se conectar com o mundo
Em pequenas e médias empresas, funções que não requerem computador são comuns. É o que acontece com garçons, atendentes em lanchonetes e mecânicos em redes de oficinas, por exemplo. Eles acabam sem acesso à internet — que, hoje em dia, é quase como ficar pelado. Nos restaurantes America, de São Paulo, os funcionários da cozinha ou que servem clientes no salão não tinham como receber e-mail da família ou pagar uma conta pela internet sem deixar o local de trabalho. Desde o início deste ano, cada uma das 14 lojas da rede ganhou um terminal de computador, que pode ser utilizado nos intervalos ou nos horários de entrada e saída do serviço. Cada um é compartilhado, em média, por cerca de 60 funcionários. “Agora eles também podem acessar a intranet para saber o que acontece na própria empresa”, diz Marcelo Cabrera, gerente de recursos humanos do America.
…economizar uns trocados
Assinar convênios com estabelecimentos comerciais ou com profissionais de saúde para obter descontos para os funcionários é uma forma de fazer o salário deles render mais. Na maioria dos casos, não custa absolutamente nada para a empresa — normalmente, quem fecha esses convênios oferece condições melhores de preço e pagamento em troca da preferência e de um número grande de clientes. “Basta apenas descobrir o que o pessoal mais precisa e procurar um fornecedor para fazer um acordo”, diz Fernando Mungioli, dono da Arcoweb, editora de livros e revistas para profissionais de arquitetura e construção civil. Mungioli fez um acordo desses com a massagista de um consultório próximo à empresa, no centro de São Paulo. Os funcionários têm direito a um abatimento de 30%. “Eles usam bastante o serviço, valorizando uma iniciativa que não nos custou nada”, diz Mungioli. “O resultado foi tão bom que estamos estudando novos acordos.”
A MSTech, empresa de tecnologia com sede em Bauru, no interior paulista, fez convênios com farmácias, clínicas odontológicas e uma academia de ginástica que renderam descontos de até 50% para os funcionários. “Acreditamos que os benefícios ajudam a reduzir a rotatividade, que é alta no setor”, diz o sócio Eduardo Stevanato, de 42 anos.
…ser um pouco criança
Há pequenas e médias empresas que investem em diversão para aliviar as tensões no trabalho. É o que faz uma das equipes da Digital Pages, de São Paulo, especializada em publicações digitais. Os funcionários da revista eletrônica Salseiro — todos loucos por jogos eletrônicos — se reúnem às sextas-feiras para disputar campeonatos de videogame. O almoço do vencedor do dia e os comes e bebes consumidos durante a competição são por conta da empresa. “Com 70 reais por semana, integramos os funcionários de um jeito divertido”, diz o empreendedor Juan Ximenes, de 28 anos.
…ter acesso a atividades culturais
Quando Marques, do laboratório Buenos Ayres, percebeu que entre seus funcionários havia muitos que estudavam algum instrumento, ele viu a oportunidade de congregar seu pessoal em torno de algo importante para eles. Marques, que toca guitarra, montou um miniestúdio com microfone, amplificadores e caixas acústicas no auditório da empresa. Às sextas-feiras, ele e mais dez funcionários tocam violão, bateria, baixo e teclado em jam sessions que atendem a todos os gostos dos participantes. “O repertório inclui rock, MPB, pagode e música sertaneja”, diz Marques. “É a nossa happy hour.”
…não ficar na mão na hora do aperto
Ajudar os funcionários a superar problemas familiares, financeiros ou pendências judiciais não implica gastar muito dinheiro. “Problemas pessoais acabam com a tranquilidade e afetam o desempenho”, diz Cida Gomes, de 45 anos, dona da paulista GSS, que presta serviços de segurança para grandes companhias. Um dos benefícios que ela concede a seus 600 funcionários é um plano que permite consultar — gratuitamente — psicólogos, assistentes sociais, advogados e consultores financeiros. “Desde que passamos a dar esse apoio, muitos funcionários nos procuraram para dizer que a vida deles melhorou, e isso refletiu positivamente nos negócios”, afirma Cida. “Os atrasos, as faltas e o número de acidentes de trabalho caíram.” Na GSS, o custo do benefício é 15 reais mensais por pessoa.
…se organizar melhor
Um problema comum a muitos profissionais é a falta de tempo para os afazeres pessoais, consultar um médico ou fazer um curso. Nas grandes cidades, ir ao trabalho e voltar é, geralmente, sinônimo de perder várias horas em congestionamentos, o que causa ainda mais estresse e desconforto. Uma solução ao alcance de muitas pequenas e médias empresas para diminuir esse sofrimento é adotar horários flexíveis de trabalho. “É simples, sem custo e agrada bastante”, afirma a consultora de recursos humanos Renata Mello. “Mas poucas pequenas e médias empresas dão essa liberdade aos funcionários, pois é preciso uma política de gestão por resultados, e não por tempo trabalhado.”
Na Reconsult, de São Paulo, que presta consultoria em exploração mineral, é permitido esticar o tempo de almoço ou alterar o horário de entrada e saída para fazer cursos de idiomas ou simplesmente malhar na academia. “As avaliações de desempenho estão relacionadas ao cumprimento de metas, e não ao tempo que as pessoas passam no escritório”, diz Renato Cordani, de 36 anos, sócio da Reconsult.
…comer direitinho
Há dois anos, a Aliz, empresa de consultoria fiscal, oferece diariamente um café da manhã aos 265 funcionários de suas unidades em São Paulo e no Rio de Janeiro. A obediência aos preceitos de uma alimentação saudável é visível — nas mesas, há sempre pães integrais, frutas, sucos naturais, iogurtes e cereais. Depois, no meio da tarde, uma copeira percorre as salas com um carrinho cheio de frutas. A despesa mensal com as duas refeições fica em torno de 13 reais por funcionário. De acordo com o sócio Eduardo Lopes, o objetivo é diminuir o consumo de porcarias no dia a dia. “Acredito que uma ação concreta dá mais resultado do que campanhas de conscientização com palestras e folhetos”, afirma Lopes. “Muitos dizem que agora eles e suas famílias se alimentam melhor também em casa.”
A corretora paulista GPS-Pamcary, especializada em seguros para transportadoras, contratou uma nutricionista para acompanhar casos de obesidade e colesterol alto. Ela também analisa o cardápio dos restaurantes próximos da empresa e indica os pratos mais saudáveis. Num ano, a redução de peso entre os 210 empregados que passaram pelo programa chegou a 2,3 quilos por pessoa. O investimento foi de apenas 3,80 reais mensais para cada um.
…descansar, pois ninguém é de ferro
Um ambiente com camas arrumadas para tirar uma soneca enrolado em cobertores quentinhos pode parecer muito estranho de encontrar numa fábrica. Mas essa é a descrição do “cochilódromo” — um departamento importante para os funcionários da Politorno, empresa de móveis de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul. Com um investimento de 1 000 reais, a Politorno criou um espaço com 25 camas onde, depois do almoço, quem quiser pode tirar uma soneca de até 45 minutos.
Na paulista Direct Talk, empresa de softwares para relacionamento com consumidores, há o que foi batizado de sala de descompressão. Ali, os funcionários praticam ioga, comemoram aniversários, leem revistas e comem barras de cereais fornecidas pela empresa. “Eles podem ficar lá o quanto quiserem”, diz Diego Lopes, sócio da Direct Talk, que investe 72 reais mensais por funcionário na manutenção da sala de descompressão. “O que queremos é que as tarefas sejam cumpridas.”
Cecília Abatti e Carmen Nascimento 27.10.2009
exame/pme